É o mundo que anda hostil
a pomba carregada de fuzil
pra metralhar a puta que o pariu.
aplausos
para os grandes homens que estouram os miolos
dos que explodem outros?
paradoxo inexorável
auto-sustentável
e abominável...
sinto-me uma fina voz
agorando por ideais esquecidos
convertidos em valor real
real, demasiadamente real
que silencia os sonhos
esmaga os desejos
etiqueta as auras.
como voar por aí flutuando em altas freqüências
se nenhum ouvido é apto ao agudo?
(título dedicado à matéria do jornal O Globo logo após a tomada do complexo do alemão)
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
américas
hello, hello
is there anybody in there?
navego sem navio, sem capitão
meio a ondas de angústia
que quebram a cada hipocrisia
um "tudo bem?" corriqueiro
sem nem mesmo uma análise do rosto receptor
chegando a meus olhos ensebados
meios-gritos abafados em lenços de papel.
tanto é obrigação o cumprimento como o é as minhas lágrimas...
is there anybody in there?
navego sem navio, sem capitão
meio a ondas de angústia
que quebram a cada hipocrisia
um "tudo bem?" corriqueiro
sem nem mesmo uma análise do rosto receptor
chegando a meus olhos ensebados
meios-gritos abafados em lenços de papel.
tanto é obrigação o cumprimento como o é as minhas lágrimas...
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
ressonância
quaisqueres pequenas pedradas parecem ressoar
como ondas beta e teta, graves
enclaves
cujos golpes fazem a represa balançar
e vazar em gotas,
reprimidas contra a gravidade
pela falta de sentido,
pela ríspida destreza
pela razão apolínia
não condizentes a meu sangue latino
minh'alma cativa
quebrei a lança,
lancei no espaço:
um grito, um desabafo
é, nessas alusões e ilusões
encontramos nossas faltas
desejos, sofrimentos
páthos:
é o que purifica
pré-requisito pra renascer
replantar
o grão nosso de cada dia
dia após dia.
como ondas beta e teta, graves
enclaves
cujos golpes fazem a represa balançar
e vazar em gotas,
reprimidas contra a gravidade
pela falta de sentido,
pela ríspida destreza
pela razão apolínia
não condizentes a meu sangue latino
minh'alma cativa
quebrei a lança,
lancei no espaço:
um grito, um desabafo
é, nessas alusões e ilusões
encontramos nossas faltas
desejos, sofrimentos
páthos:
é o que purifica
pré-requisito pra renascer
replantar
o grão nosso de cada dia
dia após dia.
domingo, 14 de novembro de 2010
abalo sísmico
a visão de seus olhos vermelhos latejantes
e minha culpa enlaçada a eles
me assombrarão pelas mil e uma noites
que ainda deitarei a seu lado,
relutando em lembrar-me
do abalo sísmico que lhe causei
pela mera expressão de um desvirtuamento...
quem o sabe, quem o julga?
já não me importo mais o que é ou não um desvio
desde que o pesadelo de ter de viver sem ti
não desbrave seu caminho tortuoso até o mundo real
para que torne tortuoso o meu
e as nuvens acima não despejem um novo oceano
que nos separe a fim de rasgar meu âmago
pelo pensamento de não mais fundir nossas filosofias
não conseguir substituir seu ronrono pelo do mais tenro felino
não ser capaz de reproduzir suas implicações e risadas patetas
ou de não ouvir as mínimas obssessões que arrancam-me sorrisos
com minusciosas descrições e entonações que compõem seu brilho próprio.
deixai nosso amor queimar-se em vela,
para que a sublimação se dê em fusão
e nossos seres, já mesclados, se pertençam até o próximo ciclo
onde surgiremos permutados de outras formas
sempre num giro gestáltico,
sempre os yins e os yangs
sempre, nós.
e minha culpa enlaçada a eles
me assombrarão pelas mil e uma noites
que ainda deitarei a seu lado,
relutando em lembrar-me
do abalo sísmico que lhe causei
pela mera expressão de um desvirtuamento...
quem o sabe, quem o julga?
já não me importo mais o que é ou não um desvio
desde que o pesadelo de ter de viver sem ti
não desbrave seu caminho tortuoso até o mundo real
para que torne tortuoso o meu
e as nuvens acima não despejem um novo oceano
que nos separe a fim de rasgar meu âmago
pelo pensamento de não mais fundir nossas filosofias
não conseguir substituir seu ronrono pelo do mais tenro felino
não ser capaz de reproduzir suas implicações e risadas patetas
ou de não ouvir as mínimas obssessões que arrancam-me sorrisos
com minusciosas descrições e entonações que compõem seu brilho próprio.
deixai nosso amor queimar-se em vela,
para que a sublimação se dê em fusão
e nossos seres, já mesclados, se pertençam até o próximo ciclo
onde surgiremos permutados de outras formas
sempre num giro gestáltico,
sempre os yins e os yangs
sempre, nós.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
alegoria ao intelectual francês
discurse para mim
sobre a fenomenologia das subjetividades pós-modernas
sobre os sentidos por ti embutidos a plexos pulsionais
sobre as impressões de mundo vindas de seu âmago
enquanto acende mais um cigarro
e tuas madeixas espreguiçam-se até cobrir seus olhos
desordenadas até o último fio
serei o ouvido mais leal que já viste
sempre com um sorriso envergonhado
desde que a vermelhidão passe despercebida
e lembre de fechar os lábios -
tanto para evitar vazamento por contemplação
como para não deixar transparecer
o quão mortífero é o desejo de levá-los aos seus.
sobre a fenomenologia das subjetividades pós-modernas
sobre os sentidos por ti embutidos a plexos pulsionais
sobre as impressões de mundo vindas de seu âmago
enquanto acende mais um cigarro
e tuas madeixas espreguiçam-se até cobrir seus olhos
desordenadas até o último fio
serei o ouvido mais leal que já viste
sempre com um sorriso envergonhado
desde que a vermelhidão passe despercebida
e lembre de fechar os lábios -
tanto para evitar vazamento por contemplação
como para não deixar transparecer
o quão mortífero é o desejo de levá-los aos seus.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
there's too much love
violinos balançam-me enquanto filosofo sobre rabiscos inconscientes
as nuvens esculpidas de presente por belle e sebastian
permitiram-me modelar essa casa de veraneio
onde o tempo é sempre nevoeiro e nevasca
e descontínuo, num ziguezague
formando oito infinito ao patinar pelo lago congelado.
desse mundo é árdua a tarefa de voltar
cair na história contínua e evolutiva
fria
e não o frio afetuoso dos flocos
mas um frio a corromper a forma do meu poema
cutucar-me com o tagarelar de meus deveres
e reprimir-me o mínimo de paixão que tento os impôr
de modo a moldá-la em uma escala de 1 a 10.
eu sou 11, 100, um milhão
ela é todos os números que pairam pelo conjunto
nenhum deles entenderá a sua voracidade
e seu fogo os queimará
para não encherem mais meu saco
discursando que o caos é errado.
as nuvens esculpidas de presente por belle e sebastian
permitiram-me modelar essa casa de veraneio
onde o tempo é sempre nevoeiro e nevasca
e descontínuo, num ziguezague
formando oito infinito ao patinar pelo lago congelado.
desse mundo é árdua a tarefa de voltar
cair na história contínua e evolutiva
fria
e não o frio afetuoso dos flocos
mas um frio a corromper a forma do meu poema
cutucar-me com o tagarelar de meus deveres
e reprimir-me o mínimo de paixão que tento os impôr
de modo a moldá-la em uma escala de 1 a 10.
eu sou 11, 100, um milhão
ela é todos os números que pairam pelo conjunto
nenhum deles entenderá a sua voracidade
e seu fogo os queimará
para não encherem mais meu saco
discursando que o caos é errado.
ao leão
santa loucura que introjetou-se em mim;
borboletas no estômago e formigueiro no peito
agonizam-me enquanto o vejo caminhar.
se há alguma energia provedora, eu lhe suplico
piedade de uma alma afortunada
que encontraste o clímax de seu roteiro:
uma centelha que fez amor com um lampião
e cujo fruto está em mim,
aquecendo meu drama em meio ao novembro nublado.
chuva de novembro me trouxe a fantasia
de esperar-lhe como quem parece ocupado
e aceitar um convite de vagar sem rumo
por baixo de uma grande folha,
onde há só nós ao lado da colônia.
a alma afortunada então treme como carneiro
vulnerável frente ao leão
mas paralizado por seu fascínio
e se a juba se aproximasse da presa
cabe a ela aceitar seu destino
como Delfos já aconselhara,
e como seu coração já implorara...
borboletas no estômago e formigueiro no peito
agonizam-me enquanto o vejo caminhar.
se há alguma energia provedora, eu lhe suplico
piedade de uma alma afortunada
que encontraste o clímax de seu roteiro:
uma centelha que fez amor com um lampião
e cujo fruto está em mim,
aquecendo meu drama em meio ao novembro nublado.
chuva de novembro me trouxe a fantasia
de esperar-lhe como quem parece ocupado
e aceitar um convite de vagar sem rumo
por baixo de uma grande folha,
onde há só nós ao lado da colônia.
a alma afortunada então treme como carneiro
vulnerável frente ao leão
mas paralizado por seu fascínio
e se a juba se aproximasse da presa
cabe a ela aceitar seu destino
como Delfos já aconselhara,
e como seu coração já implorara...
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
flows on you
aconteceu.
não pude evitar,
apaixonei-me pelo calor do mistério...
e agora recuo-me aos meus sonhos,
amando ainda eternamente meu bem amado
e também a pluralidade que me é tão cara
resignando-me a fantasias
pelas quais meu mais precioso cristal poderia quebrar-se
cair no abismo
e só subir à superfície com zéfiro,
apenas pela metade, opaco e arranhado
como fazer-te entender sem levar comigo seu brilho?
não pude evitar,
apaixonei-me pelo calor do mistério...
e agora recuo-me aos meus sonhos,
amando ainda eternamente meu bem amado
e também a pluralidade que me é tão cara
resignando-me a fantasias
pelas quais meu mais precioso cristal poderia quebrar-se
cair no abismo
e só subir à superfície com zéfiro,
apenas pela metade, opaco e arranhado
como fazer-te entender sem levar comigo seu brilho?
com amor, zaratustra
veio até mim!
o meu destinatário secreto recebeu minha correspondência
sem saber que se destinava a ele
de um remetente desconhecido
agora com mais desrazão que nunca
ao deleitar-se no gozo de declarar-se
coberta por um lençol, em sussurros
mas mesmo assim vendo estrelas.
amar um só não faz mais sentido
há uma enchente sentimental vazando de mim
suplicando para sair e irrigar outros campos
germinar novas flores e novas vidas
começar um ecossistema vizinho, com tanta riqueza
estas expectativas me matam,
e matam aos poucos as pulsões que me dão a juventude
e desperdiçam vidas, massacram possibilidades
de novos atravessamentos paralelos.
novos amores são novas relações,
que são novos cultivos e partilhas
que urgem a disseminar-se pelos prados
e enfrentar novos monstros que me farão sofrer
e, portanto, viver.
o meu destinatário secreto recebeu minha correspondência
sem saber que se destinava a ele
de um remetente desconhecido
agora com mais desrazão que nunca
ao deleitar-se no gozo de declarar-se
coberta por um lençol, em sussurros
mas mesmo assim vendo estrelas.
amar um só não faz mais sentido
há uma enchente sentimental vazando de mim
suplicando para sair e irrigar outros campos
germinar novas flores e novas vidas
começar um ecossistema vizinho, com tanta riqueza
estas expectativas me matam,
e matam aos poucos as pulsões que me dão a juventude
e desperdiçam vidas, massacram possibilidades
de novos atravessamentos paralelos.
novos amores são novas relações,
que são novos cultivos e partilhas
que urgem a disseminar-se pelos prados
e enfrentar novos monstros que me farão sofrer
e, portanto, viver.
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vida
terça-feira, 2 de novembro de 2010
rosa vermelha
estes dias peguei uma rosa da rua
ela estava se abrindo, se descobrindo
emanava esplendorosa veludez vermelha
apesar de seu aroma já ter escapado, pouco a pouco, para o nariz de muitos
fugiu como a zebra da leoa
mas a covardia da rosa não me impediu de contemplar.
reergui-a da calçada onde muitos devem tê-la pisoteado
e devolvi-lhe o carinho que merecia
até liberá-la para seu lugar
no meio da nação colorida,
no coração do jardim secreto.
ela estava se abrindo, se descobrindo
emanava esplendorosa veludez vermelha
apesar de seu aroma já ter escapado, pouco a pouco, para o nariz de muitos
fugiu como a zebra da leoa
mas a covardia da rosa não me impediu de contemplar.
reergui-a da calçada onde muitos devem tê-la pisoteado
e devolvi-lhe o carinho que merecia
até liberá-la para seu lugar
no meio da nação colorida,
no coração do jardim secreto.
impressão sol poente
meu querido, vim suplicar
para que retires essa máscara que me atira de joelhos a ti
para que enfim, talvez, eu pare de sonhar com teus fios sujos e desvairados
com teu sorriso sutil e infantil
e com cada última gota de expectativas
com as quais preenchi sua incógnita gestalt.
perdoa-me pelos versos compridos e desajeitados,
mas é a primeira vez que escrevo-te sem um muro entre nós
meus dedos tremem, embriagados pela idéia de seus olhos percorrerem meu poema
não é amor que sinto por ti
mas uma paixão por um mistério docemente familiar...
apesar de haver outros enraizados em minha bomba aórtica
poderias ali acampar por algumas eternidades
armar barraca longe das raízes, mas abaixo de uma árvore
e compartilhar com eles a fauna que me mostrares
coração das trevas e da luz
a feição de suave monstro, de criatura escondida do hostil:
impressão.
para que retires essa máscara que me atira de joelhos a ti
para que enfim, talvez, eu pare de sonhar com teus fios sujos e desvairados
com teu sorriso sutil e infantil
e com cada última gota de expectativas
com as quais preenchi sua incógnita gestalt.
perdoa-me pelos versos compridos e desajeitados,
mas é a primeira vez que escrevo-te sem um muro entre nós
meus dedos tremem, embriagados pela idéia de seus olhos percorrerem meu poema
não é amor que sinto por ti
mas uma paixão por um mistério docemente familiar...
apesar de haver outros enraizados em minha bomba aórtica
poderias ali acampar por algumas eternidades
armar barraca longe das raízes, mas abaixo de uma árvore
e compartilhar com eles a fauna que me mostrares
coração das trevas e da luz
a feição de suave monstro, de criatura escondida do hostil:
impressão.
domingo, 24 de outubro de 2010
exhilaration
aqui, no meu canto
dançando com minhas palavras não-pronunciadas
fetos de expressão
permaneço no centro do tornado
a contemplar o movimento,
o caos pacífico e alostásico
ao embaralho de interocepções amorfas
que abalroam-se, abraçam-se, beijam-se e chacinam-se
ao som de grizzly bear
num girar de guarda-chuva
em meio a uma tempestade de pomarola.
meus bebês parecem ensangüentados, mas deliciam-se
fazem guerra e abrem a boca para cima
infância perdida encontra-se aí,
no êxtase dionisíaco que ainda não esqueci.
quanto a mim, ao fazer parte deste banquete
penso comigo mesma se embriago-me o suficiente
e sorrio, frente às fartas cachoeiras de memórias emotivas
aos riachos de lágrimas e risadas,
de dor, agonia, euforia, angústia, luto, júbilo e amor
as águas que irrigam meu ser.
lanço-me, banho-me e abro a boca para cima
para que, na psicose, vivamos felizes para sempre.
dançando com minhas palavras não-pronunciadas
fetos de expressão
permaneço no centro do tornado
a contemplar o movimento,
o caos pacífico e alostásico
ao embaralho de interocepções amorfas
que abalroam-se, abraçam-se, beijam-se e chacinam-se
ao som de grizzly bear
num girar de guarda-chuva
em meio a uma tempestade de pomarola.
meus bebês parecem ensangüentados, mas deliciam-se
fazem guerra e abrem a boca para cima
infância perdida encontra-se aí,
no êxtase dionisíaco que ainda não esqueci.
quanto a mim, ao fazer parte deste banquete
penso comigo mesma se embriago-me o suficiente
e sorrio, frente às fartas cachoeiras de memórias emotivas
aos riachos de lágrimas e risadas,
de dor, agonia, euforia, angústia, luto, júbilo e amor
as águas que irrigam meu ser.
lanço-me, banho-me e abro a boca para cima
para que, na psicose, vivamos felizes para sempre.
fotossíntese
um dia tirado em bolha
no ninho, no nicho
com guarda-chuvinhas
e pirulitos de coração
as you're lying there
drifting off to sleep...
poderia estar nevando lá fora
a contentação seria a mesma.
universo paralelo onírico por um dia
onde nada mais importa
onde nada pode nos incomodar
além de nós mesmos.
pulsos surrealistas gotejam de mim
enquanto me balançam e apertam o finalzinho
para extrair qualquer coisa louca
de lá, flores desabrochadas com espinhos
mas com folhas abertas para a luz do sol
abraçam a luz;
num chão macio, e fiapos de ouro a acariciar
a folhagem tenra os enrola
e se alimenta.
no ninho, no nicho
com guarda-chuvinhas
e pirulitos de coração
as you're lying there
drifting off to sleep...
poderia estar nevando lá fora
a contentação seria a mesma.
universo paralelo onírico por um dia
onde nada mais importa
onde nada pode nos incomodar
além de nós mesmos.
pulsos surrealistas gotejam de mim
enquanto me balançam e apertam o finalzinho
para extrair qualquer coisa louca
de lá, flores desabrochadas com espinhos
mas com folhas abertas para a luz do sol
abraçam a luz;
num chão macio, e fiapos de ouro a acariciar
a folhagem tenra os enrola
e se alimenta.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
regina spektor me entenderia
regina, regina
você penetra por minha garganta com suas garras
arranca minha luz e leva-a consigo
ilumina a melodia exalada no ar perfumado
enquanto recita as partituras
desfiando-me em lágrimas
tanto faz se é tristeza ou alegria,
você me ressussita a cada repeat:
one more time with feeling.
você penetra por minha garganta com suas garras
arranca minha luz e leva-a consigo
ilumina a melodia exalada no ar perfumado
enquanto recita as partituras
desfiando-me em lágrimas
tanto faz se é tristeza ou alegria,
você me ressussita a cada repeat:
one more time with feeling.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
couraça
(sem inspiração mas com vontade expressiva)
não me satisfaço com mil poemas,
aqui ainda há algo intrincado
a ser sublimado
couraça a ser dissolvida
cachoeiras a desabarem da frágil (e dócil) múmia
lírios a desabrocharem do caos
tal como a minha falta de rimas
meio a chistes e bloqueios!
não me satisfaço com mil poemas,
aqui ainda há algo intrincado
a ser sublimado
couraça a ser dissolvida
cachoeiras a desabarem da frágil (e dócil) múmia
lírios a desabrocharem do caos
tal como a minha falta de rimas
meio a chistes e bloqueios!
boiolice de colégio
boiolice de colégio:
é isso mesmo que deixo desenrolar?
é doce viver a fantasia,
o que antes foi uma piada
e agora é uma nebulosa afetiva
o estremecer, o tambor cadíaco
a res-piração
o apoiar do rosto ao punho
enquanto ele caminha.
bobagem de criança? talvez,
até mesmo pelo cunho da escrita pueril
(ou quem sabe só por falta de inspiração)
mas é uma onda de calor que não quero abrir mão
é uma pitada de vida a mais nas minhas semanas
preenchendo as saudades e as oscilações...
é isso mesmo que deixo desenrolar?
é doce viver a fantasia,
o que antes foi uma piada
e agora é uma nebulosa afetiva
o estremecer, o tambor cadíaco
a res-piração
o apoiar do rosto ao punho
enquanto ele caminha.
bobagem de criança? talvez,
até mesmo pelo cunho da escrita pueril
(ou quem sabe só por falta de inspiração)
mas é uma onda de calor que não quero abrir mão
é uma pitada de vida a mais nas minhas semanas
preenchendo as saudades e as oscilações...
a dama da água - só para loucos
dançando pelas teclas branco-e-preto
e rodopiando por entre sinceros tons agudos
nado e bóio em expectativas:
mergulho
no ambiente favorito de menor gravidade, criam-se vigorosos cachos
que tomam coragem e retomam o ar,
num súbito movimento ascendente em arco
como lua crescente triste
a câmera lenta vê-se os tentáculos
em coreografia com as gotículas de sonho úmido
delicadeza e pujância de mãos dadas
a fim de expressar a cor do fantasiar
discreto e sutil,
o espetáculo que poucos vêem
que poucos conseguem sentir.
e rodopiando por entre sinceros tons agudos
nado e bóio em expectativas:
mergulho
no ambiente favorito de menor gravidade, criam-se vigorosos cachos
que tomam coragem e retomam o ar,
num súbito movimento ascendente em arco
como lua crescente triste
a câmera lenta vê-se os tentáculos
em coreografia com as gotículas de sonho úmido
delicadeza e pujância de mãos dadas
a fim de expressar a cor do fantasiar
discreto e sutil,
o espetáculo que poucos vêem
que poucos conseguem sentir.
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010
catarse para um novo amor
uma aurora de um novo amor já nasceu
no berço de uma pulsão desacorrentada.
animus raiou de meu âmago e fluiu em espiral
ascendeu até o céu da boca e deslizou
suavemente enlaçado a meu hálito
pairou e envolveu as mordidas, os arranhões e gemidos
e tudo consumiu-se em chamas
catarse astral.
as almas queimam para transformarem-se
combustam em poeira de estrela
sôfrega energia as lança no infinito universo
como se ainda abraçadas em ávido desejo
e enfim sucumbem ao sideral em esplendoroso fogo de artifício.
neva flocos de poeira cósmica:
em galáxias, asteróides e cometas
e ao sistema solar
uma jornada para o recomeço
para tecer novas constelações
traçar novos labirintos
saborear novas gotas de chuva
fazer novo amor.
no berço de uma pulsão desacorrentada.
animus raiou de meu âmago e fluiu em espiral
ascendeu até o céu da boca e deslizou
suavemente enlaçado a meu hálito
pairou e envolveu as mordidas, os arranhões e gemidos
e tudo consumiu-se em chamas
catarse astral.
as almas queimam para transformarem-se
combustam em poeira de estrela
sôfrega energia as lança no infinito universo
como se ainda abraçadas em ávido desejo
e enfim sucumbem ao sideral em esplendoroso fogo de artifício.
neva flocos de poeira cósmica:
em galáxias, asteróides e cometas
e ao sistema solar
uma jornada para o recomeço
para tecer novas constelações
traçar novos labirintos
saborear novas gotas de chuva
fazer novo amor.
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sexta-feira, 24 de setembro de 2010
platônico imaginado
aqui no silêncio do meu cubículo
nesse canto escuro onde ninguém me avistará
à minha melodia querida da ilha do norte
abandono-me ao secreto gozo das suas letras
o deleite de descobrir-lhe sem ser descoberta
no negro fundo de seu líquido livro, como o meu
assim como o contraste com o branco e verde-claro
e todas as outras coicidências reunidas
na minha identidade compartilhada imaginária.
foi bom brincar por um tempo
mas a fagulha já me aquece mais do que eu gostaria...
e agora espio pela fechadura do seu mundo
ao invés de cumprir meus deveres sociais!
ah, se eu pudesse ter esta fôrma em biscoito fresco
tecer novas investigações e alinhamentos
ou pelo menos quebrar a solidez do biscoito favorito
em batimentos emocionais tão barulhentos!
nesse canto escuro onde ninguém me avistará
à minha melodia querida da ilha do norte
abandono-me ao secreto gozo das suas letras
o deleite de descobrir-lhe sem ser descoberta
no negro fundo de seu líquido livro, como o meu
assim como o contraste com o branco e verde-claro
e todas as outras coicidências reunidas
na minha identidade compartilhada imaginária.
foi bom brincar por um tempo
mas a fagulha já me aquece mais do que eu gostaria...
e agora espio pela fechadura do seu mundo
ao invés de cumprir meus deveres sociais!
ah, se eu pudesse ter esta fôrma em biscoito fresco
tecer novas investigações e alinhamentos
ou pelo menos quebrar a solidez do biscoito favorito
em batimentos emocionais tão barulhentos!
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poema
faísca de um novo que já é
o que será que há
no caótico desgrinhado daquelas madeixas
no quadro embaraçado e curvado para si
no aspecto encardido da cabeça aos pés
no ar intelectual dos cafés parisienses
no jeito delicado de escrever
que arranca de mim um ronronar peculiar
e um ímpeto desejo de aganchar-me em seus cabelos,
esfregar-me em suas bochechas de meias-barbas,
e desfalcar-lhe um beijo para derretê-lo e fundi-lo em mim.
por que será
que a cada vez que ouço um certo sotaque britânico
e certas notas untadas em melodia celestial
me vem a sublime fantasia em uma bicicleta
e meus olhos não sabem mais parar de segui-lo...
sim,
é projeção do que já é
e do que será.
mas o é diferente, excitante
e enigmático
do perfeito arquétipo cravado em minha paixão...
basta rememorar-me desta racional idéia
que nada passará de uma centelha!
no caótico desgrinhado daquelas madeixas
no quadro embaraçado e curvado para si
no aspecto encardido da cabeça aos pés
no ar intelectual dos cafés parisienses
no jeito delicado de escrever
que arranca de mim um ronronar peculiar
e um ímpeto desejo de aganchar-me em seus cabelos,
esfregar-me em suas bochechas de meias-barbas,
e desfalcar-lhe um beijo para derretê-lo e fundi-lo em mim.
por que será
que a cada vez que ouço um certo sotaque britânico
e certas notas untadas em melodia celestial
me vem a sublime fantasia em uma bicicleta
e meus olhos não sabem mais parar de segui-lo...
sim,
é projeção do que já é
e do que será.
mas o é diferente, excitante
e enigmático
do perfeito arquétipo cravado em minha paixão...
basta rememorar-me desta racional idéia
que nada passará de uma centelha!
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
notas sobre (o termo) Aurora
In Bulfinch's Mythology from 1855 by Thomas Bulfinch there is the claim that in Norse mythology:
The Valkyrior are warlike virgins, mounted upon horses and armed with helmets and spears. /.../ When they ride forth on their errand, their armour sheds a strange flickering light, which flashes up over the northern skies, making what men call the "aurora borealis", or "Northern Lights".
The first Old Norse account of norðrljós is found in the Norwegian chronicle Konungs Skuggsjá from AD 1230. The chronicler has heard about this phenomenon from compatriots returning from Greenland, and he gives three possible explanations: that the ocean was surrounded by vast fires, that the sun flares could reach around the world to its night side, or that glaciers could store energy so that they eventually became fluorescent.[31]
In ancient Roman mythology, Aurora is the goddess of the dawn, renewing herself every morning to fly across the sky, announcing the arrival of the sun. The persona of Aurora the goddess has been incorporated in the writings of Shakespeare, Lord Tennyson and Thoreau.
The Valkyrior are warlike virgins, mounted upon horses and armed with helmets and spears. /.../ When they ride forth on their errand, their armour sheds a strange flickering light, which flashes up over the northern skies, making what men call the "aurora borealis", or "Northern Lights".
The first Old Norse account of norðrljós is found in the Norwegian chronicle Konungs Skuggsjá from AD 1230. The chronicler has heard about this phenomenon from compatriots returning from Greenland, and he gives three possible explanations: that the ocean was surrounded by vast fires, that the sun flares could reach around the world to its night side, or that glaciers could store energy so that they eventually became fluorescent.[31]
In ancient Roman mythology, Aurora is the goddess of the dawn, renewing herself every morning to fly across the sky, announcing the arrival of the sun. The persona of Aurora the goddess has been incorporated in the writings of Shakespeare, Lord Tennyson and Thoreau.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Livraria
em: Aurora Borealis ou Luzes do Norte
(a editar)
A umas três estações de metrô jazia o esconderijo paradisíaco da minha alma. Era uma livraria, daquelas que, ao dar o primeiro passo para dentro, respira-se cultura e sutileza. Residia numa espécie de galeria privada, secreta, que abrigava a livraria, um pequeno café e um grande cinema ao lado. Tantas vezes fugia do recinto dos artistas com o único veemente desejo de assentar-me em própria introspecção por horas, e refugiava-me ali. Ao abrir a porta da galeria penetrava paulatinamente em minha alma; ao aproximar-me dos três ambientes, preenchia-me de exaltação e anseio, pois ia de encontro à doce solidão.
Chegando à livraria, o aroma de livros novos sempre me contagiava e sentia que poderia viver naquele recanto por semanas. Lá, o tempo congelava e jamais me ocorria de checar um relógio; tampouco sentada em uma das mesas degustando o mais sublime cappuccino do mundo, cujos primeiros goles levavam minhas papilas gustativas a um delírio tal que era imprescindível a sua lenta apreciação; assim como suaves mas vigorantes inspirações enquanto o provava - elas fizeram-se exigência irrevogável de meu olfato. Fiel obediente de cada implacável demanda de meus sentidos, sentada eu permanecia diante de meu cappuccino por tempo incalculável, encostando levemente o nariz à xícara a cada vez que a levantava, a fim de captar aquela forte fragrância para minhas doces memórias, para logo em seguida saborear o néctar que seria cunhado nas profundas nostalgias que minha mente prega até hoje.
Naqueles momentos, tinha uma pátria; eu pertencia aos livros e suas possibilidades, meus compatriotas eram as pessoas imersas em si, em qualquer seção: filosofia, psicologia, antropologia, ficção, biografias, arte ou até mesmo história, qualquer leitor tão comovido pelas letras impressas em mãos a ponto de sentar-se na mesinha ao centro e deixar-se mergulhar. Minha alma me sussurrava: aqui é o seu lar – dentro de ti. Encontrava-me em mim em qualquer parte da galeria.
(a editar)
A umas três estações de metrô jazia o esconderijo paradisíaco da minha alma. Era uma livraria, daquelas que, ao dar o primeiro passo para dentro, respira-se cultura e sutileza. Residia numa espécie de galeria privada, secreta, que abrigava a livraria, um pequeno café e um grande cinema ao lado. Tantas vezes fugia do recinto dos artistas com o único veemente desejo de assentar-me em própria introspecção por horas, e refugiava-me ali. Ao abrir a porta da galeria penetrava paulatinamente em minha alma; ao aproximar-me dos três ambientes, preenchia-me de exaltação e anseio, pois ia de encontro à doce solidão.
Chegando à livraria, o aroma de livros novos sempre me contagiava e sentia que poderia viver naquele recanto por semanas. Lá, o tempo congelava e jamais me ocorria de checar um relógio; tampouco sentada em uma das mesas degustando o mais sublime cappuccino do mundo, cujos primeiros goles levavam minhas papilas gustativas a um delírio tal que era imprescindível a sua lenta apreciação; assim como suaves mas vigorantes inspirações enquanto o provava - elas fizeram-se exigência irrevogável de meu olfato. Fiel obediente de cada implacável demanda de meus sentidos, sentada eu permanecia diante de meu cappuccino por tempo incalculável, encostando levemente o nariz à xícara a cada vez que a levantava, a fim de captar aquela forte fragrância para minhas doces memórias, para logo em seguida saborear o néctar que seria cunhado nas profundas nostalgias que minha mente prega até hoje.
Naqueles momentos, tinha uma pátria; eu pertencia aos livros e suas possibilidades, meus compatriotas eram as pessoas imersas em si, em qualquer seção: filosofia, psicologia, antropologia, ficção, biografias, arte ou até mesmo história, qualquer leitor tão comovido pelas letras impressas em mãos a ponto de sentar-se na mesinha ao centro e deixar-se mergulhar. Minha alma me sussurrava: aqui é o seu lar – dentro de ti. Encontrava-me em mim em qualquer parte da galeria.
fazer novo amor (em queda livre)
Da atmosfera nebulosa da asfixia vou caindo, lenta e suavemente, de costas, em direção a um ar que evoca lembranças da essência de prado; fecho os olhos e assento-me ao vento floral que acaricia-me com minhas próprias madeixas. Respiro e vivo o momento de paz, e ao abraçá-lo sublima para mim o travesseiro espacial, mais macio e solene que nunca nesta nova vida: pelos ares transicionais aperto-lhe entre meus braços, germinando a chuva rala, pluma a pluma. O gotejar das felpes envolve meu novo ar numa convecção galaxial, assim como meus fios de cabelo formam magníficos caracóis na dança à queda livre.
Vôo como voam sacos plásticos ao vento, agarrada ao travesseiro como a um amante em tempo frio, pouso em qualquer coisa tão macia quanto o toque da sua fronha. Afundo e afundo no que parece a nuvem na qual uma vez já sonhei, já adormeci, já gemi, ao lado daquele tão querido amante, uma vaga lembrança preenche o espaço vazio da minha (agora visivelmente) cama.
Antigas fervilhas agora unem-se sob nova forma, como tanto pregava Zaratustra?
Pouco provável. Pelo menos tentam, mesmo que à sombra do passado.
O novo arranjo de feixes agrada-me, e sou capaz de apaixonar-me ainda mais uma vez, e enovelar uma nova história.
Vôo como voam sacos plásticos ao vento, agarrada ao travesseiro como a um amante em tempo frio, pouso em qualquer coisa tão macia quanto o toque da sua fronha. Afundo e afundo no que parece a nuvem na qual uma vez já sonhei, já adormeci, já gemi, ao lado daquele tão querido amante, uma vaga lembrança preenche o espaço vazio da minha (agora visivelmente) cama.
Antigas fervilhas agora unem-se sob nova forma, como tanto pregava Zaratustra?
Pouco provável. Pelo menos tentam, mesmo que à sombra do passado.
O novo arranjo de feixes agrada-me, e sou capaz de apaixonar-me ainda mais uma vez, e enovelar uma nova história.
domingo, 15 de agosto de 2010
por razões desconhecidas
Recolhida em silêncio, em luta para amordaçar o redemoinho que ninguém conseguiria captar por completo: eis uma manifestação do demônio; A angústia dos incompreendidos equivale a um pedaço do inferno, assim como o doloroso desencaixe e seu procedente desamparo. É um tipo diferente de inquitação, algo que se faz passar por centelha mas é geada, cascas decantadas sobre vazio, atando-o a camisas de força, tentando sem sucesso abafar os impactos do asfixiante vácuo contra as lascas de gelo afim de proliferar-se como célula cancerígena.
É possível ouvir o funesto e mudo clamor pelo verdadeiro sentimento, como uma enérgica voz escutada de muito longe, mas não obstante com evidente acuidade, desesperada.
O brado parece germinar de abrupta mutação, aleatória e caótica, como uma ordem assentada por outrém, sem qualquer outra possibilidade, determinando por fim a hora de tudo desmoronar. Mas e se não estiver preparada? E se ainda for camelo e não leão? E se o mundo me parece seguro demais para abandonar-me ao devir? Tal hipocrisia me enoja, me enche de desgosto em relação a mim mesma. Talvez, no fundo, seja mais covarde do que desejaria ser.
É possível ouvir o funesto e mudo clamor pelo verdadeiro sentimento, como uma enérgica voz escutada de muito longe, mas não obstante com evidente acuidade, desesperada.
O brado parece germinar de abrupta mutação, aleatória e caótica, como uma ordem assentada por outrém, sem qualquer outra possibilidade, determinando por fim a hora de tudo desmoronar. Mas e se não estiver preparada? E se ainda for camelo e não leão? E se o mundo me parece seguro demais para abandonar-me ao devir? Tal hipocrisia me enoja, me enche de desgosto em relação a mim mesma. Talvez, no fundo, seja mais covarde do que desejaria ser.
contra a maré do existir?
Líquido, inconsistente é o meu estado. A busca por algo extraordinário provou-se iniciar, colocando-se em voga apenas o exercício de uma coragem infantil, se sou capaz de desprender-me em direção a um novo mundo e à negação da repetição. O regresso fez-se dissolver qualquer sentido como a bile destrói os resíduos do cerne. A violência deu lugar ao gasto e macio familiar, atirando-me em confortável jaula, mas jaula não obstante. Sinto o ar escapar-me pelos feixes coloridos enquanto deixo-me sucumbir ao deleite daqueles braços, remexendo em meus antigos sonhos, como se congelados no tempo se preservassem estagnados, reclamando pela plenitude fantasiada por tantos, que antes culminava naquele mesmo toque, naquele mesmo calor, fervendo meu sangue e o presenteava com um sentido. A dor da perda pesa sobre mim, o apego a ressentimentos fantasmas alfineta-me a ponto de lacrimejar. Abraço minhas mágoas em luto ao padecer do sentimento, e pergunto-me se não passa de uma fase ou se o desespero parece-me deveras insuportável; ou mesmo se não seria viver o meramente suportável a mais angustiante forma de negação. A todo modo, algo eu ainda sentia, pois o sal ainda escorre pelas minhas bochechas, embora forçosamente. Ainda estava a salvo do existir, apesar de meu viver já ter começado a diluir.
sábado, 14 de agosto de 2010
fadada a fingir
ao ouvir a pergunta, viro-me de costas para deparar-me com os estupradores sociais.
nos olhares cintilantes de esperança enxergo todas as suas fantasias sendo consumadas em uma única resposta, cuspida em minha boca; o brilho de suas faces e sorrisos deixa transparecer uma dourada promessa de finais felizes vividos através outros olhos, outros sorrisos.
antecipo a decepção nos olhos reluzentes ao encarar a verdade, sentindo os gélidos corredores de titâneo que agora nos separam. meu rosto é iluminado pela sua excessiva cor branca, minha visão fez-se eclipse e borrão; as açucaradas expectativas não correspondem à piscina de lama e lava que é minha alma. minha tarefa foi descumprida; o que deveria sentir um corpo dócil como o meu não sente. ele sente sede, sede de algo além do dever - seria o devir? meus olhos não o reconhecem mais? não sabia. não sabia nem mesmo que nome anotar na etiqueta para posterior análise ou engavetamento. na verdade, meus sentimentos em torno daquela gaveta se faziam mais claros do que qualquer outro: ah, o horror!
então minto, um sorriso é secretado e excretado do casulo e enfim declaro: "ainda não caiu a ficha!"
nos olhares cintilantes de esperança enxergo todas as suas fantasias sendo consumadas em uma única resposta, cuspida em minha boca; o brilho de suas faces e sorrisos deixa transparecer uma dourada promessa de finais felizes vividos através outros olhos, outros sorrisos.
antecipo a decepção nos olhos reluzentes ao encarar a verdade, sentindo os gélidos corredores de titâneo que agora nos separam. meu rosto é iluminado pela sua excessiva cor branca, minha visão fez-se eclipse e borrão; as açucaradas expectativas não correspondem à piscina de lama e lava que é minha alma. minha tarefa foi descumprida; o que deveria sentir um corpo dócil como o meu não sente. ele sente sede, sede de algo além do dever - seria o devir? meus olhos não o reconhecem mais? não sabia. não sabia nem mesmo que nome anotar na etiqueta para posterior análise ou engavetamento. na verdade, meus sentimentos em torno daquela gaveta se faziam mais claros do que qualquer outro: ah, o horror!
então minto, um sorriso é secretado e excretado do casulo e enfim declaro: "ainda não caiu a ficha!"
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Se eu morrer, não chore não, é só o mar
Apesar da enorme alegria com a qual me presenteia o morno lago, é necessário respingá-lo também nas chamas; desse modo o evaporar se expirará em catarse e renascerá, reluzindo como fênix em condensação, preenchendo os silêncios com o milagroso esplendor das gotas cristalinas, puras, e cunhando-se enfim novo lago. O tatear com o solo escaldante o fez pequeno mar, revolto e convulso, ondas caóticas que quebravam em si mesmas: contra isso meus olhos não são mais capazes de lutar, e penetram adentro de cada estremecer, deslumbrados pelo seu vigor. Contemplo o mar com cada milímetro de mim, fascinada com a vivacidade e a magnitude de suas ondas, num transe que unta-me ao som do quebrar. É o resplandecer do sacrifício, o cintilar da revolução, o resplandecer da morte e da vida. Sem esse mar eu não poderia mais viver, e muito menos morrer.
não saber amar como um bom burguês
Não é um medo estarrecedor, de um raio ou uma rocha flamejante atirada e cuspida em minha direção, com poder de fazer-me perecer nas chamas da destruição. É, sim, medo - tão aterrorizante quanto qualquer outro - mas de outro gênero. É medo da paz, do contentamento, da satisfação e da marola; medo de não ter pelo que morrer, somente pelo que extinguir-se.
Grande prazer me proporciona o morno lago ao fazer-me boiar, suave e perfeito; a água enrosca seus dedos por entre meus cabelos e afaga-me, com tal delicadeza e gentileza que deixo-me comover, revirar e abraçar o travesseiro de plumas e amores que as algas - tão hospitaleiras - doaram à sua fiel visitante. Enquanto a água beija meu corpo nu, contornando-o absoluto, adentrando pelas cavernas escondidas com inequiparável devoção, em minha alma floresce felicidade que a preenche até a boca, pois afinal conseguiu tudo o que desejava nas fitinhas do senhor do bonfim, tudo aquilo que confortava-a e procurava confortá-la incessantemente. Ao dar-me conta de que a fantasia tomara tal forma, ao deparar-me com ela a poucos metros de mim, aquele veneno, a amarga e temida angústia, renasce de minhas entranhas; percorre então os longos e íleos caminhos que compõem o meu cerne à procura de oxigênio, arrastando-se sempre para frente, deveras frenético e de avassaladora pressão - pois a morte por asfixia é dura demais. Segue os vestígios de luz e encontra uma válvula de escape: são meus olhos, e através deles agora vazam cachoeiras de angústia; lavando-me o corpo com o ácido líquido da culpa. Mais uma vez ardo, mas ardo não de paixão, e sim de auto-consciência; a dolorosa pontada touché por mim mesma, fincada como penitência por não saber amar como um bom burguês.
Grande prazer me proporciona o morno lago ao fazer-me boiar, suave e perfeito; a água enrosca seus dedos por entre meus cabelos e afaga-me, com tal delicadeza e gentileza que deixo-me comover, revirar e abraçar o travesseiro de plumas e amores que as algas - tão hospitaleiras - doaram à sua fiel visitante. Enquanto a água beija meu corpo nu, contornando-o absoluto, adentrando pelas cavernas escondidas com inequiparável devoção, em minha alma floresce felicidade que a preenche até a boca, pois afinal conseguiu tudo o que desejava nas fitinhas do senhor do bonfim, tudo aquilo que confortava-a e procurava confortá-la incessantemente. Ao dar-me conta de que a fantasia tomara tal forma, ao deparar-me com ela a poucos metros de mim, aquele veneno, a amarga e temida angústia, renasce de minhas entranhas; percorre então os longos e íleos caminhos que compõem o meu cerne à procura de oxigênio, arrastando-se sempre para frente, deveras frenético e de avassaladora pressão - pois a morte por asfixia é dura demais. Segue os vestígios de luz e encontra uma válvula de escape: são meus olhos, e através deles agora vazam cachoeiras de angústia; lavando-me o corpo com o ácido líquido da culpa. Mais uma vez ardo, mas ardo não de paixão, e sim de auto-consciência; a dolorosa pontada touché por mim mesma, fincada como penitência por não saber amar como um bom burguês.
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