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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

poço do absurdo

espíritos do cansaço arrastam-me para o poço
poço arenoso dos arrependimentos
caio, e agonizo por uma brecha
no meu coração e nos dos que me amam.

recaio em reclusão,
tento abraçar as vidas no entorno
mas são apenas águas-vivas
que aterrorizam-se com o meu amar
e assassinam-me com o seu queimar...

desmaio então no duro fundo do poço
semicerro os olhos e despeço-me das memórias
de lá de cima, do mundo novo e velho
ao seguir com os braços os reflexos da luz
que dançam pelas minhas pernas
varrendo-me para qualquer outro lugar
algum outro algoritmo
que me reajustará a outros sofrimentos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

wanderlust

folheando páginas amareladas
engreno em uma trilha vespertina
por dentre folhas de gelo e cerejas de cristal
dimensão de tempo descontínuo
fragmentado
cujas luzes refratam em prisma
num arco-íris estrelado que rouba meu ar
para que ele respire por mais tempo
e brilhe tal como os lençóis das suas cores.

contemplo esse espetáculo
desejando transmitir para meus amores:
rabisco rascunhos desse mundo
na contracapa de um García Márquez
e o deixo em uma praça qualquer
à deriva
para que alguém o decifre...
e com um beijo de boa sorte
faz-se amuleto.

dedico-lhe ao amor,
e tatuo minha devoção com negra tinta
ao fazer germinar de mim as tais palavras:
àquele que achar paixões e vivê-las,
que descubra a autopoiese de transformar e ser transformado,
de derreter em si e no outro,
de libertar os sentimentos ao princípio da incerteza,
o mágico movimento do universo em uma pequena esfera
que vaga cravando seu nome
wanderlust.

domingo, 14 de novembro de 2010

abalo sísmico

a visão de seus olhos vermelhos latejantes
e minha culpa enlaçada a eles
me assombrarão pelas mil e uma noites
que ainda deitarei a seu lado,
relutando em lembrar-me
do abalo sísmico que lhe causei
pela mera expressão de um desvirtuamento...
quem o sabe, quem o julga?
já não me importo mais o que é ou não um desvio
desde que o pesadelo de ter de viver sem ti
não desbrave seu caminho tortuoso até o mundo real
para que torne tortuoso o meu
e as nuvens acima não despejem um novo oceano
que nos separe a fim de rasgar meu âmago
pelo pensamento de não mais fundir nossas filosofias
não conseguir substituir seu ronrono pelo do mais tenro felino
não ser capaz de reproduzir suas implicações e risadas patetas
ou de não ouvir as mínimas obssessões que arrancam-me sorrisos
com minusciosas descrições e entonações que compõem seu brilho próprio.

deixai nosso amor queimar-se em vela,
para que a sublimação se dê em fusão
e nossos seres, já mesclados, se pertençam até o próximo ciclo
onde surgiremos permutados de outras formas
sempre num giro gestáltico,
sempre os yins e os yangs
sempre, nós.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

there's too much love

violinos balançam-me enquanto filosofo sobre rabiscos inconscientes
as nuvens esculpidas de presente por belle e sebastian
permitiram-me modelar essa casa de veraneio
onde o tempo é sempre nevoeiro e nevasca
e descontínuo, num ziguezague
formando oito infinito ao patinar pelo lago congelado.
desse mundo é árdua a tarefa de voltar
cair na história contínua e evolutiva
fria
e não o frio afetuoso dos flocos
mas um frio a corromper a forma do meu poema
cutucar-me com o tagarelar de meus deveres
e reprimir-me o mínimo de paixão que tento os impôr
de modo a moldá-la em uma escala de 1 a 10.
eu sou 11, 100, um milhão
ela é todos os números que pairam pelo conjunto
nenhum deles entenderá a sua voracidade
e seu fogo os queimará
para não encherem mais meu saco
discursando que o caos é errado.

domingo, 24 de outubro de 2010

exhilaration

aqui, no meu canto
dançando com minhas palavras não-pronunciadas
fetos de expressão
permaneço no centro do tornado
a contemplar o movimento,
o caos pacífico e alostásico
ao embaralho de interocepções amorfas
que abalroam-se, abraçam-se, beijam-se e chacinam-se
ao som de grizzly bear
num girar de guarda-chuva
em meio a uma tempestade de pomarola.
meus bebês parecem ensangüentados, mas deliciam-se
fazem guerra e abrem a boca para cima
infância perdida encontra-se aí,
no êxtase dionisíaco que ainda não esqueci.

quanto a mim, ao fazer parte deste banquete
penso comigo mesma se embriago-me o suficiente
e sorrio, frente às fartas cachoeiras de memórias emotivas
aos riachos de lágrimas e risadas,
de dor, agonia, euforia, angústia, luto, júbilo e amor
as águas que irrigam meu ser.
lanço-me, banho-me e abro a boca para cima
para que, na psicose, vivamos felizes para sempre.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Se eu morrer, não chore não, é só o mar

Apesar da enorme alegria com a qual me presenteia o morno lago, é necessário respingá-lo também nas chamas; desse modo o evaporar se expirará em catarse e renascerá, reluzindo como fênix em condensação, preenchendo os silêncios com o milagroso esplendor das gotas cristalinas, puras, e cunhando-se enfim novo lago. O tatear com o solo escaldante o fez pequeno mar, revolto e convulso, ondas caóticas que quebravam em si mesmas: contra isso meus olhos não são mais capazes de lutar, e penetram adentro de cada estremecer, deslumbrados pelo seu vigor. Contemplo o mar com cada milímetro de mim, fascinada com a vivacidade e a magnitude de suas ondas, num transe que unta-me ao som do quebrar. É o resplandecer do sacrifício, o cintilar da revolução, o resplandecer da morte e da vida. Sem esse mar eu não poderia mais viver, e muito menos morrer.

não saber amar como um bom burguês

Não é um medo estarrecedor, de um raio ou uma rocha flamejante atirada e cuspida em minha direção, com poder de fazer-me perecer nas chamas da destruição. É, sim, medo - tão aterrorizante quanto qualquer outro - mas de outro gênero. É medo da paz, do contentamento, da satisfação e da marola; medo de não ter pelo que morrer, somente pelo que extinguir-se.
Grande prazer me proporciona o morno lago ao fazer-me boiar, suave e perfeito; a água enrosca seus dedos por entre meus cabelos e afaga-me, com tal delicadeza e gentileza que deixo-me comover, revirar e abraçar o travesseiro de plumas e amores que as algas - tão hospitaleiras - doaram à sua fiel visitante. Enquanto a água beija meu corpo nu, contornando-o absoluto, adentrando pelas cavernas escondidas com inequiparável devoção, em minha alma floresce felicidade que a preenche até a boca, pois afinal conseguiu tudo o que desejava nas fitinhas do senhor do bonfim, tudo aquilo que confortava-a e procurava confortá-la incessantemente. Ao dar-me conta de que a fantasia tomara tal forma, ao deparar-me com ela a poucos metros de mim, aquele veneno, a amarga e temida angústia, renasce de minhas entranhas; percorre então os longos e íleos caminhos que compõem o meu cerne à procura de oxigênio, arrastando-se sempre para frente, deveras frenético e de avassaladora pressão - pois a morte por asfixia é dura demais. Segue os vestígios de luz e encontra uma válvula de escape: são meus olhos, e através deles agora vazam cachoeiras de angústia; lavando-me o corpo com o ácido líquido da culpa. Mais uma vez ardo, mas ardo não de paixão, e sim de auto-consciência; a dolorosa pontada touché por mim mesma, fincada como penitência por não saber amar como um bom burguês.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

melancolia

melancolia é vácuo que obstrui as narinas
tão parte sua quanto o seu rim
este filtra o sangue; aquela filtra as visões
tinge-as de negro e transborda aos olhos
ou ao coração - hemorragia.

domingo, 2 de maio de 2010

nothing's quite what it seems in a city of dreams

Tenho uma visão
360, subjetivação
céu, terra, água, fogo e energia
there's no such thing as fairies
mito, místico, intangível
o quão mágico?

domingo, 25 de abril de 2010

psicologia da procrastinação

que será que será
que me trava e deprime
me come, me domina
toda a porra do tempo
por mais doce que sejam os bolos?
sim, é outrora doçura
a doçura do amargo: wallow
onomatopéico que só
designa o retrato de um complexo.
assim se vê, assim se vive
a seu modo, intenso
e insubstituível

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Esse calor que derrete o meu cérebro

Esse calor que derrete o meu cérebro
também transpira emoções.
Raiva, angústia, inquietude, arrependimento e medo escorrem e se unem em poça
para refletir meu rosto in-intrépido
como um cachorro reflete seu dono.
a última gota já se esgotou e não agüento mais.
que o tempo passe e leve o seu maldito tempo tropical com ele
até o último resquício desse bafo dos infernos.
As horas e os dias passam e nada faço, só suo,
suo e misso
submissa.
E escrevo poemas de merda

segunda-feira, 15 de março de 2010

Estucada na Mancha

Pendulando em opiniões, vou nadando
no aquário do Canal, e os anos vão passando
e eu marrei
porque estou tão doente disso tudo...
se lar é onde mora o seu coração
por que sou arremessada
de novo e de novo
de volta para o Atlântico?

Acorrentada à mancha, alterno de terras
de tempos em tempos
pra ver qual me vai.
mas algumas vezes tento ver
qual me terna...
e tudo converge num transtorno patrial
a teia que eu me fiz construir
da qual não consigo mais sair.

Alma extraviada continua sua busca
pela nação que encha seus sapatos
para ela sempre será errante
e errante ela para sempre será.





obs.:

stuck / la manche
j'en ai marre / i'm so sick of it
quelle me va / which one suits me
fill its shoes
for it will always be