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domingo, 3 de julho de 2011

"E com isso te comunico uma doutrina que te fará rir, ó Govinda: tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo. Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores. Mas a mim interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo (...) O gesto da tua mão me importa mais do que as suas opiniões. Não é nos seus discursos e nas suas idéias que se me depara a sua grandeza, senão unicamente nos seus atos e na sua vida".

Siddhatha - Hermann Hesse

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Edema

Demônios verdes que enfim vazaram!
Mesmo que seus rastros excrementosos restem
o grito foi bem vindo para drenar parte do veneno.
Gás letal ainda circula por este ovo
Líquido amniótico podre se converte em edema,
sugando e bloqueando o ar puro
para mais carbono acumular-se de novo.

Dispositivo que ativou o sangue adormecido
é a desgraça alheia a qual já invejei,
as marcas teatrais do Dionísio da morte
trevas que consomem até o limite

que assim atenção ela prestou
que assim ela beijou e abraçou
será que ela ouviria?
será que ela sentiria?

segunda-feira, 28 de março de 2011

águas de março

perante obrigações racionais aqui me exponho,
nadando por entre memórias perfumadas
de sonhos plantados e colhidos
nesse outono que agora reina.

a colheita me recobre em nuvens
mas permaneço em cima, não desço
e recaio em partículas de saudade da estratosfera.
revivo momentos pintados por pulsão
cujo fluxo que me escapula queima com sua acidez
refletida pelo fato de fugir de meus dedos
e a corrente ter de correr.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

wanna whole lotta love

dançam em mim delírios suados
de curvas quentes que enroscam-se e dilaceram-se
meio a uma sinfonia led zeppelin
em que unhas e dentes destroçam a cada riff
e a visão embaralha dentro d'um caldeirão.

ata-me! me come sem piedade
arranca-me as madeixas que arranco as tuas
aos gritos cala-me e engole-me com teu beijo
enquanto cravo labirintos vermelhos em tuas costas
e perco-me na luxúria desse sonho
na violência voraz da tua pele.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

ressonância

quaisqueres pequenas pedradas parecem ressoar
como ondas beta e teta, graves
enclaves
cujos golpes fazem a represa balançar
e vazar em gotas,
reprimidas contra a gravidade
pela falta de sentido,
pela ríspida destreza
pela razão apolínia
não condizentes a meu sangue latino
minh'alma cativa
quebrei a lança,
lancei no espaço:
um grito, um desabafo

é, nessas alusões e ilusões
encontramos nossas faltas
desejos, sofrimentos
páthos:
é o que purifica
pré-requisito pra renascer
replantar
o grão nosso de cada dia
dia após dia.

domingo, 24 de outubro de 2010

exhilaration

aqui, no meu canto
dançando com minhas palavras não-pronunciadas
fetos de expressão
permaneço no centro do tornado
a contemplar o movimento,
o caos pacífico e alostásico
ao embaralho de interocepções amorfas
que abalroam-se, abraçam-se, beijam-se e chacinam-se
ao som de grizzly bear
num girar de guarda-chuva
em meio a uma tempestade de pomarola.
meus bebês parecem ensangüentados, mas deliciam-se
fazem guerra e abrem a boca para cima
infância perdida encontra-se aí,
no êxtase dionisíaco que ainda não esqueci.

quanto a mim, ao fazer parte deste banquete
penso comigo mesma se embriago-me o suficiente
e sorrio, frente às fartas cachoeiras de memórias emotivas
aos riachos de lágrimas e risadas,
de dor, agonia, euforia, angústia, luto, júbilo e amor
as águas que irrigam meu ser.
lanço-me, banho-me e abro a boca para cima
para que, na psicose, vivamos felizes para sempre.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

catarse para um novo amor

uma aurora de um novo amor já nasceu
no berço de uma pulsão desacorrentada.
animus raiou de meu âmago e fluiu em espiral
ascendeu até o céu da boca e deslizou
suavemente enlaçado a meu hálito
pairou e envolveu as mordidas, os arranhões e gemidos
e tudo consumiu-se em chamas
catarse astral.

as almas queimam para transformarem-se
combustam em poeira de estrela
sôfrega energia as lança no infinito universo
como se ainda abraçadas em ávido desejo
e enfim sucumbem ao sideral em esplendoroso fogo de artifício.

neva flocos de poeira cósmica:
em galáxias, asteróides e cometas
e ao sistema solar
uma jornada para o recomeço
para tecer novas constelações
traçar novos labirintos
saborear novas gotas de chuva
fazer novo amor.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

faísca de um novo que já é

o que será que há
no caótico desgrinhado daquelas madeixas
no quadro embaraçado e curvado para si
no aspecto encardido da cabeça aos pés
no ar intelectual dos cafés parisienses
no jeito delicado de escrever
que arranca de mim um ronronar peculiar
e um ímpeto desejo de aganchar-me em seus cabelos,
esfregar-me em suas bochechas de meias-barbas,
e desfalcar-lhe um beijo para derretê-lo e fundi-lo em mim.

por que será
que a cada vez que ouço um certo sotaque britânico
e certas notas untadas em melodia celestial
me vem a sublime fantasia em uma bicicleta
e meus olhos não sabem mais parar de segui-lo...
sim,
é projeção do que já é
e do que será.
mas o é diferente, excitante
e enigmático
do perfeito arquétipo cravado em minha paixão...
basta rememorar-me desta racional idéia
que nada passará de uma centelha!

domingo, 15 de agosto de 2010

por razões desconhecidas

Recolhida em silêncio, em luta para amordaçar o redemoinho que ninguém conseguiria captar por completo: eis uma manifestação do demônio; A angústia dos incompreendidos equivale a um pedaço do inferno, assim como o doloroso desencaixe e seu procedente desamparo. É um tipo diferente de inquitação, algo que se faz passar por centelha mas é geada, cascas decantadas sobre vazio, atando-o a camisas de força, tentando sem sucesso abafar os impactos do asfixiante vácuo contra as lascas de gelo afim de proliferar-se como célula cancerígena.
É possível ouvir o funesto e mudo clamor pelo verdadeiro sentimento, como uma enérgica voz escutada de muito longe, mas não obstante com evidente acuidade, desesperada.
O brado parece germinar de abrupta mutação, aleatória e caótica, como uma ordem assentada por outrém, sem qualquer outra possibilidade, determinando por fim a hora de tudo desmoronar. Mas e se não estiver preparada? E se ainda for camelo e não leão? E se o mundo me parece seguro demais para abandonar-me ao devir? Tal hipocrisia me enoja, me enche de desgosto em relação a mim mesma. Talvez, no fundo, seja mais covarde do que desejaria ser.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Se eu morrer, não chore não, é só o mar

Apesar da enorme alegria com a qual me presenteia o morno lago, é necessário respingá-lo também nas chamas; desse modo o evaporar se expirará em catarse e renascerá, reluzindo como fênix em condensação, preenchendo os silêncios com o milagroso esplendor das gotas cristalinas, puras, e cunhando-se enfim novo lago. O tatear com o solo escaldante o fez pequeno mar, revolto e convulso, ondas caóticas que quebravam em si mesmas: contra isso meus olhos não são mais capazes de lutar, e penetram adentro de cada estremecer, deslumbrados pelo seu vigor. Contemplo o mar com cada milímetro de mim, fascinada com a vivacidade e a magnitude de suas ondas, num transe que unta-me ao som do quebrar. É o resplandecer do sacrifício, o cintilar da revolução, o resplandecer da morte e da vida. Sem esse mar eu não poderia mais viver, e muito menos morrer.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

vivo, muito vivo, vivo, vivo feel the sound of music in my belly, belly

Arrepio gelado vem da sensação de viver. É bela, pois seu estado de espírito contempla o estado de seu espírito - sem nenhuma outra alternativa além de senti-lo, atônito, sem fôlego por saber que deslumbroso significado pode colorir sua humilde existência em traços impressionistas, realçando suas curvas e todos seus resquícios de ardente movimento. Num ato de gloriosa inspiração, ar e aleluia enchem o meu cerne com tal vigor que me arranca lágrimas. Consciente de cada minusciosa víscera que palpita em mim, minha aura brilha de júbilo e não me contenho; acaricio meus braços do pulso ao ombro, e me envolvo em nuvens de felicidade ao meu corpo ser abraçado por seu mais íntimo amigo.
Em seguida implode puríssimo amor. Pela minha chama, por este delirante sabor salgado que escorre pela minha face ser real, por estar vivo, muito vivo, vivo, vivo!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

um mundo ideal

Ela colocava constantemente flores num vaso: vivenciando o futuro atemporal, com seu plebeu de cabelos pretos viajava pelas estrelas num tapete persa, enquanto compartilhava filosofias e sonhos entre luares e águas refletidas. Percorriam os véus da emoção de um novo laço, em meio a um oceano de amores apressados, pulsionando vida por toda a alma. O Devir era tudo - senhor de si, de todos, dos dois. Fundidos nessa única e mágica nova realidade, a eternidade é pouco. Leveza pura é o som de ser livre e se fazer prisioneiro de outrém. Dela emanava o perfume do sentimento eterno enquanto si, e a doce amarga fragilidade cristalina a erigia tal como o Leão. Seu suor eram as lágrimas do júbilo de querer perecer; morrer a cada instante para revivê-los de diversas formas, em diversas novas vidas.
Poderia ela derreter-se para dentro dele? Poderia ele se entranhar nela e vestir sua pele e suas vísceras? Não nas leis às quais se submeteram. Suas histórias se costuram aqui, mas só criam vastos tecidos no Devir; somente num universo atemporal podem regorzijar das infinitas combinações de retalhos que derivam de tal plenitude. E essa era sua maior fantasia.
Como retirá-lo do freezer de deveres supérfulos e trazê-lo consigo, para a Realidade? Será que os mitos terrestres nunca cessariam? Nunca verão que a condição humana não está à venda? O pensamento a atravessava, deixando-a cabisbaixa. Sua loucura a libertava e a aprisionava, pois nunca conseguira trazer seus afetos à sua floresta. Nunca poderiam ver a chuva de meteoros noite após noite, tampouco as auroras boreais de seus invernos. Seu sonho era quebrar o feitiço do passado-futuro que alienava seus companheiros de Terra, em algum crepúsculo de terça-feira, para compartilhar com eles suas árvores preferidas e cada uma de suas histórias. Desejou-o nos três nós da sua fitinha de Senhor do Bonfim. Um dia chegará, ela se desfará; e junto com ela, sua solidão.

domingo, 25 de abril de 2010

psicologia da procrastinação

que será que será
que me trava e deprime
me come, me domina
toda a porra do tempo
por mais doce que sejam os bolos?
sim, é outrora doçura
a doçura do amargo: wallow
onomatopéico que só
designa o retrato de um complexo.
assim se vê, assim se vive
a seu modo, intenso
e insubstituível

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Catarse

eu senti
senti tudo ao mesmo tempo
grama, roupas, peitos, sangue
com uma energia musical que me abraçava.
para acompanhar, me abracei
eu me senti...

não precisava de nada -
de tudo me bastava
no céu lá estava eu dançando ao movimento
das luzes espelhadas na água.
me unir àquela fonte, toque a toque:
uma magia de cada vez.
ao som de gritos ritmais, meus dedos se fundiam
à água, como nunca antes
seu sonho havia se realizado bem ali, noutra realidade
seres-filhos; finalmente
enquanto os vizinhos do primeiro andar
têm um orgasmo com a grama

o self vive uma aglomeração de mundos;
uma colcha de retalhos psíquico-sensoriais
que a incorpora com naturalidade
divagam assim entre os universos de cada detalhe
unindo-os, mestiço
totalidade -
será?

o boom se completa com a colisão
das bochechas de algodão com os cachos de anjo
se unem ao rosto, ao abdomem, às pernas
e descansam junto ao antes self
imersos no que agora sim é novo universo
misto: um.



(the great gig in the sky -)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

L'hymne à l'amour

Balayés les amours...
Mes chagrins, mes plaisirs; Je n'ai plus besoin d'eux.

not!




Amo, logo existo
sou homus limbus
na borda, à margem, torta
gauche? talvez.
mas antes de tudo, bouche
vivo cada faísca humana
cada onda oscilante
em um sistema complexo de extremos.
abraço os meus erros,
me arremesso aos prazeres
e aos sofrimentos
com toda a minha psique
agarrada a mes souvenirs,
meus passados, meus futuros
sem nunca largar.
assim vou vivendo
vou amando, vou sofrendo
vou chorando, vou gargalhando
até minhas vísceras não se agüentarem mais.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

I can't stop you

eu sei os sonhos que você sonha
eu sei os seus segredos mais profundos

é você que gosta contra a parede, possuída
é você que tem as luvas pretas
e o lençol branco
você é quem vai ser, fantasia.

eu serei ele e você vênus de milo;
se despe que eu te espero
da cintura pra cima, só as luvas
e os seios de deusa, pra mim

é isso que você quer, eu quero
eu puxo o seu cabelo e te faço tremer
eu me perco dentro do lençol
e você se perde toda pra mim

vem, tá na hora
não é errado, é pulsão, é deus, é eros;
não me pára; hoje ninguém te defende
você não tem braços
é essa noite que realizamos o sonho
eu sei os seus segredos mais profundos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

There she goes again

There she goes again...
Com aquele olhar assassino dela
Com aquele semi-cerrar matador
Atirando em todos que passam.
Um por um, eles caem
A cada centímetro que a sobrancelha (esquerda) levanta.
Ela assopra o cano, abre um semi sorriso
E laça a mulher atraente,
Que é devorada por um ávido desejo.
O duelo agora é entre elas,
Ardentes criaturas do ímpeto
Afoguem-se em tentáculos de luxúria!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Bom dia, vida!

Otto mundane...

Afinal, o que é mais maravilhoso do que um dia após o outro?
A sensação de vida é a mais insubstituível que existe. Ah, vibração que emerge de nós todos, de dentro da nossa carne, flesh, como um vulcão Wroclai de cargas elétricas estimulantes, magia e motivação! Mesmo que com o pico cheio de neve de tempos em tempos, se estamos vivos ele se reativa. É como tudo que temos: há fases. Inverno, primavera, verão, outono... podem ocorrer linearmente, ao mesmo tempo ou em pipocamentos; nas mais variadas intensidades e formas! Quer mais o quê?

Quando a geada chega, em flocos ou granizo, ou mesmo chuva grossa, o que fazer? Lembrar-se que ainda há vida lá dentro; ainda há a lava de energia que quer sair. Parar, sentar e escutar o borbulhar: sim, ele bate forte. Por mais rigoroso seja o seu inverno, de dentro ainda gritam rios vermelhos de esperança, que pulsam em divergência, para abrir o que foi obstruído. Você está vivo, você é humano, você pulsa, você ama.