20-21.12.10
O que eu mais queria era unir-me a toda aquela grandeza, ao universo-penumbra sepulcral enfeitado com estrelas. Os astros eram as jóias que cintilavam a madrugada, a reluzência da névoa que costurava o horizonte. O mar e o céu refletiam-se em duas realidades mútuas, cujo rasgo libertaria o buraco negro que, narcísicamente, toda a Terra sugaria para si. Almadiçoado e sagrado, o laço entre esses universos exprimia, para mim, o casamento entre a alma e o corpo, Deus e humanidade... o amor dos pólos se fez no horizonte. Ele é a esperança da consumação entre todas as coisas, repelidas pela indiferença.
O tempo não existe no horizonte. A união desmancha a dimensão dos segundos do existir e o transforma no viver. O enovelar das grandezas me rouba lágrimas, e choro rezando pela fantasia da completude. Pelas costas, a expressão pura da falta, a lacuna se apoderando da Lua: o negro a devora, anunciando novas Eras. O paradoxo me seduz, e me arrasta pelas suas correntezas... regadas pela esperança, pelo risco, pela vulnerabilidade.
Eu amo o cheiro de vida pela manhã.
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
fazer novo amor (em queda livre)
Da atmosfera nebulosa da asfixia vou caindo, lenta e suavemente, de costas, em direção a um ar que evoca lembranças da essência de prado; fecho os olhos e assento-me ao vento floral que acaricia-me com minhas próprias madeixas. Respiro e vivo o momento de paz, e ao abraçá-lo sublima para mim o travesseiro espacial, mais macio e solene que nunca nesta nova vida: pelos ares transicionais aperto-lhe entre meus braços, germinando a chuva rala, pluma a pluma. O gotejar das felpes envolve meu novo ar numa convecção galaxial, assim como meus fios de cabelo formam magníficos caracóis na dança à queda livre.
Vôo como voam sacos plásticos ao vento, agarrada ao travesseiro como a um amante em tempo frio, pouso em qualquer coisa tão macia quanto o toque da sua fronha. Afundo e afundo no que parece a nuvem na qual uma vez já sonhei, já adormeci, já gemi, ao lado daquele tão querido amante, uma vaga lembrança preenche o espaço vazio da minha (agora visivelmente) cama.
Antigas fervilhas agora unem-se sob nova forma, como tanto pregava Zaratustra?
Pouco provável. Pelo menos tentam, mesmo que à sombra do passado.
O novo arranjo de feixes agrada-me, e sou capaz de apaixonar-me ainda mais uma vez, e enovelar uma nova história.
Vôo como voam sacos plásticos ao vento, agarrada ao travesseiro como a um amante em tempo frio, pouso em qualquer coisa tão macia quanto o toque da sua fronha. Afundo e afundo no que parece a nuvem na qual uma vez já sonhei, já adormeci, já gemi, ao lado daquele tão querido amante, uma vaga lembrança preenche o espaço vazio da minha (agora visivelmente) cama.
Antigas fervilhas agora unem-se sob nova forma, como tanto pregava Zaratustra?
Pouco provável. Pelo menos tentam, mesmo que à sombra do passado.
O novo arranjo de feixes agrada-me, e sou capaz de apaixonar-me ainda mais uma vez, e enovelar uma nova história.
domingo, 15 de agosto de 2010
por razões desconhecidas
Recolhida em silêncio, em luta para amordaçar o redemoinho que ninguém conseguiria captar por completo: eis uma manifestação do demônio; A angústia dos incompreendidos equivale a um pedaço do inferno, assim como o doloroso desencaixe e seu procedente desamparo. É um tipo diferente de inquitação, algo que se faz passar por centelha mas é geada, cascas decantadas sobre vazio, atando-o a camisas de força, tentando sem sucesso abafar os impactos do asfixiante vácuo contra as lascas de gelo afim de proliferar-se como célula cancerígena.
É possível ouvir o funesto e mudo clamor pelo verdadeiro sentimento, como uma enérgica voz escutada de muito longe, mas não obstante com evidente acuidade, desesperada.
O brado parece germinar de abrupta mutação, aleatória e caótica, como uma ordem assentada por outrém, sem qualquer outra possibilidade, determinando por fim a hora de tudo desmoronar. Mas e se não estiver preparada? E se ainda for camelo e não leão? E se o mundo me parece seguro demais para abandonar-me ao devir? Tal hipocrisia me enoja, me enche de desgosto em relação a mim mesma. Talvez, no fundo, seja mais covarde do que desejaria ser.
É possível ouvir o funesto e mudo clamor pelo verdadeiro sentimento, como uma enérgica voz escutada de muito longe, mas não obstante com evidente acuidade, desesperada.
O brado parece germinar de abrupta mutação, aleatória e caótica, como uma ordem assentada por outrém, sem qualquer outra possibilidade, determinando por fim a hora de tudo desmoronar. Mas e se não estiver preparada? E se ainda for camelo e não leão? E se o mundo me parece seguro demais para abandonar-me ao devir? Tal hipocrisia me enoja, me enche de desgosto em relação a mim mesma. Talvez, no fundo, seja mais covarde do que desejaria ser.
contra a maré do existir?
Líquido, inconsistente é o meu estado. A busca por algo extraordinário provou-se iniciar, colocando-se em voga apenas o exercício de uma coragem infantil, se sou capaz de desprender-me em direção a um novo mundo e à negação da repetição. O regresso fez-se dissolver qualquer sentido como a bile destrói os resíduos do cerne. A violência deu lugar ao gasto e macio familiar, atirando-me em confortável jaula, mas jaula não obstante. Sinto o ar escapar-me pelos feixes coloridos enquanto deixo-me sucumbir ao deleite daqueles braços, remexendo em meus antigos sonhos, como se congelados no tempo se preservassem estagnados, reclamando pela plenitude fantasiada por tantos, que antes culminava naquele mesmo toque, naquele mesmo calor, fervendo meu sangue e o presenteava com um sentido. A dor da perda pesa sobre mim, o apego a ressentimentos fantasmas alfineta-me a ponto de lacrimejar. Abraço minhas mágoas em luto ao padecer do sentimento, e pergunto-me se não passa de uma fase ou se o desespero parece-me deveras insuportável; ou mesmo se não seria viver o meramente suportável a mais angustiante forma de negação. A todo modo, algo eu ainda sentia, pois o sal ainda escorre pelas minhas bochechas, embora forçosamente. Ainda estava a salvo do existir, apesar de meu viver já ter começado a diluir.
sábado, 14 de agosto de 2010
fadada a fingir
ao ouvir a pergunta, viro-me de costas para deparar-me com os estupradores sociais.
nos olhares cintilantes de esperança enxergo todas as suas fantasias sendo consumadas em uma única resposta, cuspida em minha boca; o brilho de suas faces e sorrisos deixa transparecer uma dourada promessa de finais felizes vividos através outros olhos, outros sorrisos.
antecipo a decepção nos olhos reluzentes ao encarar a verdade, sentindo os gélidos corredores de titâneo que agora nos separam. meu rosto é iluminado pela sua excessiva cor branca, minha visão fez-se eclipse e borrão; as açucaradas expectativas não correspondem à piscina de lama e lava que é minha alma. minha tarefa foi descumprida; o que deveria sentir um corpo dócil como o meu não sente. ele sente sede, sede de algo além do dever - seria o devir? meus olhos não o reconhecem mais? não sabia. não sabia nem mesmo que nome anotar na etiqueta para posterior análise ou engavetamento. na verdade, meus sentimentos em torno daquela gaveta se faziam mais claros do que qualquer outro: ah, o horror!
então minto, um sorriso é secretado e excretado do casulo e enfim declaro: "ainda não caiu a ficha!"
nos olhares cintilantes de esperança enxergo todas as suas fantasias sendo consumadas em uma única resposta, cuspida em minha boca; o brilho de suas faces e sorrisos deixa transparecer uma dourada promessa de finais felizes vividos através outros olhos, outros sorrisos.
antecipo a decepção nos olhos reluzentes ao encarar a verdade, sentindo os gélidos corredores de titâneo que agora nos separam. meu rosto é iluminado pela sua excessiva cor branca, minha visão fez-se eclipse e borrão; as açucaradas expectativas não correspondem à piscina de lama e lava que é minha alma. minha tarefa foi descumprida; o que deveria sentir um corpo dócil como o meu não sente. ele sente sede, sede de algo além do dever - seria o devir? meus olhos não o reconhecem mais? não sabia. não sabia nem mesmo que nome anotar na etiqueta para posterior análise ou engavetamento. na verdade, meus sentimentos em torno daquela gaveta se faziam mais claros do que qualquer outro: ah, o horror!
então minto, um sorriso é secretado e excretado do casulo e enfim declaro: "ainda não caiu a ficha!"
Marcadores:
agressividade,
conto,
introversão,
psi
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Se eu morrer, não chore não, é só o mar
Apesar da enorme alegria com a qual me presenteia o morno lago, é necessário respingá-lo também nas chamas; desse modo o evaporar se expirará em catarse e renascerá, reluzindo como fênix em condensação, preenchendo os silêncios com o milagroso esplendor das gotas cristalinas, puras, e cunhando-se enfim novo lago. O tatear com o solo escaldante o fez pequeno mar, revolto e convulso, ondas caóticas que quebravam em si mesmas: contra isso meus olhos não são mais capazes de lutar, e penetram adentro de cada estremecer, deslumbrados pelo seu vigor. Contemplo o mar com cada milímetro de mim, fascinada com a vivacidade e a magnitude de suas ondas, num transe que unta-me ao som do quebrar. É o resplandecer do sacrifício, o cintilar da revolução, o resplandecer da morte e da vida. Sem esse mar eu não poderia mais viver, e muito menos morrer.
não saber amar como um bom burguês
Não é um medo estarrecedor, de um raio ou uma rocha flamejante atirada e cuspida em minha direção, com poder de fazer-me perecer nas chamas da destruição. É, sim, medo - tão aterrorizante quanto qualquer outro - mas de outro gênero. É medo da paz, do contentamento, da satisfação e da marola; medo de não ter pelo que morrer, somente pelo que extinguir-se.
Grande prazer me proporciona o morno lago ao fazer-me boiar, suave e perfeito; a água enrosca seus dedos por entre meus cabelos e afaga-me, com tal delicadeza e gentileza que deixo-me comover, revirar e abraçar o travesseiro de plumas e amores que as algas - tão hospitaleiras - doaram à sua fiel visitante. Enquanto a água beija meu corpo nu, contornando-o absoluto, adentrando pelas cavernas escondidas com inequiparável devoção, em minha alma floresce felicidade que a preenche até a boca, pois afinal conseguiu tudo o que desejava nas fitinhas do senhor do bonfim, tudo aquilo que confortava-a e procurava confortá-la incessantemente. Ao dar-me conta de que a fantasia tomara tal forma, ao deparar-me com ela a poucos metros de mim, aquele veneno, a amarga e temida angústia, renasce de minhas entranhas; percorre então os longos e íleos caminhos que compõem o meu cerne à procura de oxigênio, arrastando-se sempre para frente, deveras frenético e de avassaladora pressão - pois a morte por asfixia é dura demais. Segue os vestígios de luz e encontra uma válvula de escape: são meus olhos, e através deles agora vazam cachoeiras de angústia; lavando-me o corpo com o ácido líquido da culpa. Mais uma vez ardo, mas ardo não de paixão, e sim de auto-consciência; a dolorosa pontada touché por mim mesma, fincada como penitência por não saber amar como um bom burguês.
Grande prazer me proporciona o morno lago ao fazer-me boiar, suave e perfeito; a água enrosca seus dedos por entre meus cabelos e afaga-me, com tal delicadeza e gentileza que deixo-me comover, revirar e abraçar o travesseiro de plumas e amores que as algas - tão hospitaleiras - doaram à sua fiel visitante. Enquanto a água beija meu corpo nu, contornando-o absoluto, adentrando pelas cavernas escondidas com inequiparável devoção, em minha alma floresce felicidade que a preenche até a boca, pois afinal conseguiu tudo o que desejava nas fitinhas do senhor do bonfim, tudo aquilo que confortava-a e procurava confortá-la incessantemente. Ao dar-me conta de que a fantasia tomara tal forma, ao deparar-me com ela a poucos metros de mim, aquele veneno, a amarga e temida angústia, renasce de minhas entranhas; percorre então os longos e íleos caminhos que compõem o meu cerne à procura de oxigênio, arrastando-se sempre para frente, deveras frenético e de avassaladora pressão - pois a morte por asfixia é dura demais. Segue os vestígios de luz e encontra uma válvula de escape: são meus olhos, e através deles agora vazam cachoeiras de angústia; lavando-me o corpo com o ácido líquido da culpa. Mais uma vez ardo, mas ardo não de paixão, e sim de auto-consciência; a dolorosa pontada touché por mim mesma, fincada como penitência por não saber amar como um bom burguês.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
vivo, muito vivo, vivo, vivo feel the sound of music in my belly, belly
Arrepio gelado vem da sensação de viver. É bela, pois seu estado de espírito contempla o estado de seu espírito - sem nenhuma outra alternativa além de senti-lo, atônito, sem fôlego por saber que deslumbroso significado pode colorir sua humilde existência em traços impressionistas, realçando suas curvas e todos seus resquícios de ardente movimento. Num ato de gloriosa inspiração, ar e aleluia enchem o meu cerne com tal vigor que me arranca lágrimas. Consciente de cada minusciosa víscera que palpita em mim, minha aura brilha de júbilo e não me contenho; acaricio meus braços do pulso ao ombro, e me envolvo em nuvens de felicidade ao meu corpo ser abraçado por seu mais íntimo amigo.
Em seguida implode puríssimo amor. Pela minha chama, por este delirante sabor salgado que escorre pela minha face ser real, por estar vivo, muito vivo, vivo, vivo!
Em seguida implode puríssimo amor. Pela minha chama, por este delirante sabor salgado que escorre pela minha face ser real, por estar vivo, muito vivo, vivo, vivo!
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Momento secreto
As lágrimas escorrendo desde a gênese das suas inseguranças chegaram até seus lábios - expressivamente mais avermelhados - trouxeram de volta consigo o salgado sabor da auto-piedade, as palpitações da mais solene purificação e os veementes ressentimentos, que rasgavam-no atravessando cerne do peitoral másculo e impenetrável. Uma impetuosa tsunami de dúvidas sobre suas próprias aptidões e significações o invadiu de modo avassalador, sem poupá-lo de uma sicatriz sequer.
April, sua melhor amiga, avistou tal desmoronamento interior assim que Michel retornou à sala cheia de pessoas. Se tornara profissional em detectar as sutilezas dos sintomas emocionais do rapaz. Ele suava excessivamente, a região ao redor da boca apresentava um avermelhamento característico e seus olhos exalavam morte; a confirmação, para ela, se deu quando ele se apoiou na mesa com as mãos cerradas, com o ar recatado de quem sofreu um abalo sísmico por dentro.
A confidente se aproximou, coberta de calor para transmitir, e estrelaçou seus dedos nos do amigo. Ele, ao levantar levemente a cabeça, encontrou aqueles olhos piedosos - os únicos que enxergavam por trás de sua palidez - e se sentiu em casa.
As feridas abertas revelaram a carne viva de Michel, tão frágil e sensível quanto qualquer outra - talvez até mais. A transparência do edotélio-carapuça que ele vestia não ocultava o golpe abrupto ao qual foi submetido, mas deixava também visível seu grande coração; sua natureza humana, que sempre fora capaz de curar-se de qualquer catástrofe, da sua única e pessoal maneira de lidar consigo mesmo.
April apostou na natureza de Michel. Em seus braços, acompanhou o amigo na sua salgada purificação da alma, e o subsidiou presenteando-o com algumas horas do seu dia, no canto confortável e secreto da cozinha, onde só eles podiam se ouvir.
April, sua melhor amiga, avistou tal desmoronamento interior assim que Michel retornou à sala cheia de pessoas. Se tornara profissional em detectar as sutilezas dos sintomas emocionais do rapaz. Ele suava excessivamente, a região ao redor da boca apresentava um avermelhamento característico e seus olhos exalavam morte; a confirmação, para ela, se deu quando ele se apoiou na mesa com as mãos cerradas, com o ar recatado de quem sofreu um abalo sísmico por dentro.
A confidente se aproximou, coberta de calor para transmitir, e estrelaçou seus dedos nos do amigo. Ele, ao levantar levemente a cabeça, encontrou aqueles olhos piedosos - os únicos que enxergavam por trás de sua palidez - e se sentiu em casa.
As feridas abertas revelaram a carne viva de Michel, tão frágil e sensível quanto qualquer outra - talvez até mais. A transparência do edotélio-carapuça que ele vestia não ocultava o golpe abrupto ao qual foi submetido, mas deixava também visível seu grande coração; sua natureza humana, que sempre fora capaz de curar-se de qualquer catástrofe, da sua única e pessoal maneira de lidar consigo mesmo.
April apostou na natureza de Michel. Em seus braços, acompanhou o amigo na sua salgada purificação da alma, e o subsidiou presenteando-o com algumas horas do seu dia, no canto confortável e secreto da cozinha, onde só eles podiam se ouvir.
Marcadores:
agressividade,
conto,
emoção,
união,
vida
quarta-feira, 7 de julho de 2010
um mundo ideal
Ela colocava constantemente flores num vaso: vivenciando o futuro atemporal, com seu plebeu de cabelos pretos viajava pelas estrelas num tapete persa, enquanto compartilhava filosofias e sonhos entre luares e águas refletidas. Percorriam os véus da emoção de um novo laço, em meio a um oceano de amores apressados, pulsionando vida por toda a alma. O Devir era tudo - senhor de si, de todos, dos dois. Fundidos nessa única e mágica nova realidade, a eternidade é pouco. Leveza pura é o som de ser livre e se fazer prisioneiro de outrém. Dela emanava o perfume do sentimento eterno enquanto si, e a doce amarga fragilidade cristalina a erigia tal como o Leão. Seu suor eram as lágrimas do júbilo de querer perecer; morrer a cada instante para revivê-los de diversas formas, em diversas novas vidas.
Poderia ela derreter-se para dentro dele? Poderia ele se entranhar nela e vestir sua pele e suas vísceras? Não nas leis às quais se submeteram. Suas histórias se costuram aqui, mas só criam vastos tecidos no Devir; somente num universo atemporal podem regorzijar das infinitas combinações de retalhos que derivam de tal plenitude. E essa era sua maior fantasia.
Como retirá-lo do freezer de deveres supérfulos e trazê-lo consigo, para a Realidade? Será que os mitos terrestres nunca cessariam? Nunca verão que a condição humana não está à venda? O pensamento a atravessava, deixando-a cabisbaixa. Sua loucura a libertava e a aprisionava, pois nunca conseguira trazer seus afetos à sua floresta. Nunca poderiam ver a chuva de meteoros noite após noite, tampouco as auroras boreais de seus invernos. Seu sonho era quebrar o feitiço do passado-futuro que alienava seus companheiros de Terra, em algum crepúsculo de terça-feira, para compartilhar com eles suas árvores preferidas e cada uma de suas histórias. Desejou-o nos três nós da sua fitinha de Senhor do Bonfim. Um dia chegará, ela se desfará; e junto com ela, sua solidão.
domingo, 6 de junho de 2010
Stella foi colher amoras e voltou com uma Amélie.
As madeixas pretas lá jaziam, na mais eterna doce melancolia. Só, envolta por sentimentos de amargura, de seu cantinho erosivo não sairia : era sua porta (trancada) para seu próprio mundo. Correntes de giletes a enclausuravam em um mausoléu nobre, criada por ela para ela mesma. Seu mórbido visage e seus olhos sem esperança avistaram o espelho dos narcisos, e lá se afundou; de nada mais necessita além de seu espetáculo sofrido, a cerimônia de premiação dos maiores pesares cujo troféu foi dado a ela, por ela. O mundo lá fora era frio, irreal, quebrado e traiçoeiro; e o pior de tudo, lá, ela teria que renunciar sua tristeza.
Que lhe daria o amadurecimento em troca do abandono do doce sofrimento?
Que lhe daria o amadurecimento em troca do abandono do doce sofrimento?
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Até o próximo sonho
E lá estavam, os dois amantes, quase na hora de partir.
Nus, abraçavam-se um contra o outro, forte, sob a chuva salgada, no centro do quarto.
"Pelo menos pude sentir seu corpo todo pela última vez", alguém disse.
Invadiu a casa o espírito das últimas vezes.
O último almoço em família, último sorriso infantil do bolo com sorvete, última corrida sem roupa do banho para o quarto.
Do elevador ao aeroporto, tudo parecia se desmoronar, ao longo do caminho que o carro traçava.
O Pão-de-Açúcar e o Corcovado acenavam: "até nunca mais".
A menina não tirava o rosto das mechas cacheadas dele - e se elas fugissem?
Embarque. Não há mais como adiar.
O último abraço. "Não é o fim".
A tentativa de guardar a sensação do abraço para sempre, cada toque, o aroma.
Até o próximo sonho.
Nus, abraçavam-se um contra o outro, forte, sob a chuva salgada, no centro do quarto.
"Pelo menos pude sentir seu corpo todo pela última vez", alguém disse.
Invadiu a casa o espírito das últimas vezes.
O último almoço em família, último sorriso infantil do bolo com sorvete, última corrida sem roupa do banho para o quarto.
Do elevador ao aeroporto, tudo parecia se desmoronar, ao longo do caminho que o carro traçava.
O Pão-de-Açúcar e o Corcovado acenavam: "até nunca mais".
A menina não tirava o rosto das mechas cacheadas dele - e se elas fugissem?
Embarque. Não há mais como adiar.
O último abraço. "Não é o fim".
A tentativa de guardar a sensação do abraço para sempre, cada toque, o aroma.
Até o próximo sonho.
Sinapse do Caos
De repente, durante o banho, aquela pontada a atinge de novo.
Sofia sente-se morta por dentro, rodeada por mentiras de algodão-doce, que pulsam; a fantasia se dá como um sonho acordado - sorrisos degeneram-se na sua frente, e as cores vivas se perdem em névoa. Ela tateia a ilusão, mas o que ela procura não está pintado lá. O que ela precisa está como que uma estrela no céu negro. Ela corre, mas tropeça; agarrada na toalha, grita. Não sabe se por socorro ou para aquela luz distante. O vazio a toma mais uma vez, como que por completo, em desespero. Nua em realidade e em alucinação, ela vasculha seus sonhos internos, em busca de uma centelha de magia. Mas só encontra cinzas. Se sente fortemente arrastada por algo, como se a desenrolasse, fio a fio. Vê seus pedaços roubados juntos em uma bola de lã; e cobre o rosto com sofrimento. Desvia o olhar para o fundo sem cor, e reza para não-sabe-o-quê. As lágrimas escorrem, mas não há nada a fazer.
Acorda, enfim, com a temperatura da água corrente, ainda agarrada em sua toalha. Soluça, e esfrega seus olhos inchados com descrença. Move a torneira, desligando o chuveiro, se seca e envolve a toalha em seu corpo úmido. Em seguida, se senta, com os cotovelos na coxa e as mãos no rosto, e pensa: quando isso vai acabar?
Sofia sente-se morta por dentro, rodeada por mentiras de algodão-doce, que pulsam; a fantasia se dá como um sonho acordado - sorrisos degeneram-se na sua frente, e as cores vivas se perdem em névoa. Ela tateia a ilusão, mas o que ela procura não está pintado lá. O que ela precisa está como que uma estrela no céu negro. Ela corre, mas tropeça; agarrada na toalha, grita. Não sabe se por socorro ou para aquela luz distante. O vazio a toma mais uma vez, como que por completo, em desespero. Nua em realidade e em alucinação, ela vasculha seus sonhos internos, em busca de uma centelha de magia. Mas só encontra cinzas. Se sente fortemente arrastada por algo, como se a desenrolasse, fio a fio. Vê seus pedaços roubados juntos em uma bola de lã; e cobre o rosto com sofrimento. Desvia o olhar para o fundo sem cor, e reza para não-sabe-o-quê. As lágrimas escorrem, mas não há nada a fazer.
Acorda, enfim, com a temperatura da água corrente, ainda agarrada em sua toalha. Soluça, e esfrega seus olhos inchados com descrença. Move a torneira, desligando o chuveiro, se seca e envolve a toalha em seu corpo úmido. Em seguida, se senta, com os cotovelos na coxa e as mãos no rosto, e pensa: quando isso vai acabar?
Dança da vida... (all is full of love)
Ao som da flauta, estavam todos mergulhados naquele tudo-azul; cada um com seus corações nas mãos, entrando em si, e ao mesmo tempo unidos. Unidos por uns fios invisíveis e pegajosos, que nos fazia aproximar. Em seguida, o festival de abraços não poderia ser mais natural. Um estendeu a mão, o outro abriu os braços: simples assim, tão sincero, tão cheio de amor. Dois desconhecidos compartilharam o abraço mais apertado e mais sincero desde muito tempo. A sala emanava amor, respirava-se o amor na pele, nos sorrisos e nos olhares. A rede de amor se formou, fazendo cair lágrimas e mais lágrimas, pela sensação de não estar mais sozinho.
Não foi preciso muito tempo até darmos as mãos, em círculo. Cada um olhava para o grupo, e sorria com todo o corpo; alguns até com os olhos transbordados. Éramos um. A música começou a tocar: A roda girava, em meio a risos e sambas, cantar e cantar e cantar, e eu não poderia estar mais feliz. Olhei para todos, e flashes da época da inocência me vieram; aquela em que estendíamos nossos corações, em que não fazia sentido desconfiar, e que dizíamos sim. Pela primeira vez em muitos anos, não estava mais sozinha. Não havia mais incerteza nenhuma. Ficamos com a pureza da resposta das crianças - é a vida, é bonita e é bonita!
Não foi preciso muito tempo até darmos as mãos, em círculo. Cada um olhava para o grupo, e sorria com todo o corpo; alguns até com os olhos transbordados. Éramos um. A música começou a tocar: A roda girava, em meio a risos e sambas, cantar e cantar e cantar, e eu não poderia estar mais feliz. Olhei para todos, e flashes da época da inocência me vieram; aquela em que estendíamos nossos corações, em que não fazia sentido desconfiar, e que dizíamos sim. Pela primeira vez em muitos anos, não estava mais sozinha. Não havia mais incerteza nenhuma. Ficamos com a pureza da resposta das crianças - é a vida, é bonita e é bonita!
Marcadores:
amor livre,
biodanza,
conto,
expressão,
união
Life seems unreal, can we go back to your place?
Ela olhou para ele, e, pela primeira vez, o viu. O viu por inteiro. Antes daquele momento, a face gélida que havia naquele homem ficara completamente intacta no fundo do vidro, como que decantado pelos olhos apaixonados. Seu maior temor acerca das pessoas com quem se envolvia, quaisquer tipos de relacionamento que fosse, era o de ser menos necessária do que necessitada. O simples pairar desta idéia sempre lhe causava calafrios, e era preciso que ela se utilizasse de uma espécie de cilício imaginário para fazê-lo parar. Agora este terrível receio se tornara, de fato, realidade. Não duvidava por um segundo, todavia, dos sentimentos do amado. Conseguia perceber o seu amor através dos mínimos gestos - a maneira com que ele a abraçara por trás enquanto a ajudava a lavar a louça, o sorriso sincero que abria após uma das graças singulares dela, as implicâncias seguidas de um beijo apertado contra a bochecha. Então por que sofria tanto? Talvez pelo medo de o que sentia ser maior do que ele pudesse retribuir; de que sua maneira de amar o pudesse atrapalhar, ou pior, sufocá-lo; de que, um dia, seu objeto de afeição se cansasse de lidar com uma alma tão sentimentalmente complexa. Estava na sua essência, não podia evitar. Uma menina tão sensível como aquela costuma ter suas emoções multiplicadas em todos os níveis e seções: paixão, entusiasmo, saudade, remorso, vigor, frustração, vergonha, prazer, alegria, tristeza. Por conseguinte, o medo, grande inimigo dos corações inseguros, é transformado em pavor. Todas as suposições à parte, o que realmente se passava na cabeça de Sofia era a amarga sensação de que aquilo não duraria para sempre.
Assinar:
Postagens (Atom)