sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
dedos entrelaçados em solidão
ilustram a rede de espetáculos na qual estamos encarcerados
retorncendo para que lá encontremos algo vivo
que nos salve do desespero
resgate para um mundo incandescente
mais do que reluzir,
mais do que refletir.
cá estamos então duas folhas de papel em branco
uma frente à outra, rezando por qualquer centelha
que possa emergir num fogaréu
e nos mova, nos cative e nos consuma
para que pelo menos uma vez vivamos...
domingo, 15 de novembro de 2009
Aconteceu em Woodstock
Saudades de uma época que não se viveu: é possível?
Possível é idealizar uma década, um momento em uma imagem límpida de perfeição, de equilíbrio, e desejar vivê-la. É isso que sinto ao ler e assistir às mídias dos anos 60 fora do Brasil.
Sorte é ter realmente compartilhado com outros aquela ideologia de liberdade, além da teoria, em qualquer época (mas suponho que, naquela, mais pessoas o fizeram).
Expressar a sua essência humana tão livremente, unido a uma multidão pelos ideais e pelo rock... Viver com somente o necessário no quesito material, dormir aonde der, cozinhar para todo mundo, cada um faz a sua parte...
E hoje?
Hoje a comunidade é diferente. Mesmo aqueles que tentam reviver a época que nunca viveram, questionando a sociedade áspera e sutilmente megacompetitiva moderna, se deixam levar pela onda de crânios ocos isolados, sem esqueleto ou neurônios espelho.
É raro se sentir unido hoje em dia. Unido de verdade, como quando você é a outra e a outra é você. Há um jogo de retalhamentos de corações, porém nenhuma forma uma interceção - quando forma, ergue-se também uma parede para demarcar o território. Cada um, ao longo da vida, deixa um pedaço de si no outro... mas por que isso é arruinado com a posse?
O amor pode ser expressado de diversas maneiras, e uma das mais naturais é pelo corpo. Tocar-se é exprimir carinho que surgiu naquele momento; não importa o sexo, idade, aparência, visão política, etc... Tudo é cheio de amor. Por que não sentir isso a cada entrada no mundo de outro alguém querido?
Digo porque: Sartre estava certo. A sociedade é a prisão do homem, e o homem não vive fora de sociedade. O paradoxo primordial da existência humana. O homem faz regras dentro da sua própria liberdade, pois há a liberdade do outro próximo a ele. As regras podem ser traçadas visando um bem comum a todos ou ao bem de um determinado grupo de pessoas. A única forma de conviver com o paradoxo é com a cooperação. Com o jogo de dar e receber, todos saem beneficiados, mesmo que agora você necessite reduzir sua liberdade pessoal para aumentar a do outro - em outros momentos, a situação se inverterá.
Por que somos incapazes de viver em cooperação? Segundo Thorstein Veblen, por causa do nosso estilo de vida predatório, que desperta um sentimento de competição entre nós que nos consome por inteiro. Mas, para ele, as culturas que não passaram pela Revolução Neolítica ainda estão em um estágio de comunidade fraterna, sem a noção de um membro contra o outro, ou que um se sobrepõe a outro em qualquer modalidade. Ou seja, talvez, um dia, em um período muito muito curto da história, já tivemos este pensamento que soluciona o paradoxo da vida humana.
A partir da adoção da vida predatória, passamos a desenvolver, segundo Konrad Lorenz, 3 princípios animais:
1) Princípio da liderança - que se dá pela força (líder = mais forte); se impõe pela violência.
2) Princípio da territorialidade - proteção e demarcação do território da comunidade; e território pessoal dentro do grupo (hierarquia demarca linhas invisíveis).
3) Princípio da exclusividade de tipo - quando nasce um indivíduo fenotipicamente diferente do resto do grupo, a tendência é a exclusão ou eliminação do mesmo (neofobia).
A diferença marcante, que faz o ser humano ter um pingo de esperança para atingirmos o "retrocesso" do pensamento cooperativo, é que nós temos a capacidade de processar raciocínios, e enxergar todas estas condições - e, portanto, controlá-las para um bem comum.
Isso somente acontecerá (se não fizermos pressão) no dia em que estaremos próximos do fim do mundo ou de alguma situação tão drástica assim, como a mudança climática global: quando a sobrevivência se sobrepôr à ganância e ao individualismo pelo qual o ocidente tanto preza.
Deveríamos utilizar este "novo" caráter competitivo do homem para alcalçar esta meta mundial de paz: coloquemos em jogo o Woodstock.
Quem reunir o maior número de pessoas pela paz vence;
Quem trouxer mais felicidade para o maior número de pessoas vence mais ainda;
Quem divulgar mais amplamente essa felicidade para o mundo, e mostrar o quão melhor somos vivendo desta maneira, vence o melhor prêmio de todos: a paz.
Ao infinito, e além!
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Cada um no seu quadrado
O compartilhamento de intersubjetividades humanas agora podem ser realizados online, sem a menor necessidade do contato face a face. Em paralelo, é possível realizar um afazer que antes era feito pela comunicação cliente-atendente por uma máquina. Finalmente, para compensar este desmembramento social resultante, as pessoas não podem dizer que estão isoladas das relações sociais: todas estão ligadas pela rede em todo o mundo.
Entretanto, as subjetividades de cada um chegam perto de serem compreendidas por outrém com a presença. O olhar, o tom de voz, a energia trasmitida pele a pele. Somente informações frias e práticas podem ser trasferidas sem perdas de e para qualquer lugar do mundo.
Como conseqüência desta carência de toque e comunicação ao vivo, o indivíduo adere a uma solidão coletiva. Todo o mundo conectado a cada segundo, cada um em seu desespero particular.
Em meio a uma grande cidade, principalmente, o sujeito é inserido num contexto de anonimato à massa, o que aumenta o sentimento de solidão. Tudo aglomera-se à supravalorização dos conhecimentos científicos, racionais e práticos, que por sua vez se relacionam intimamente a conveniências institucionais (tais como Estado, empresas, comunidade científica em si, valores capitalistas coletivos, interesses internacionais diplomáticos, etc). Ambos os dominantes morais citados acarretam uma intensidade maior ainda à solidão individual, dado que os interesses protegidos não são de caráter coletivo.
Todos estes fatores de desenvolvimento da solidão, que apresetam uma visão hiperracional, fazem desenrolar, como dito no começo, uma visão cética da realidade: os valores sentimentais e humanos são deixados para trás, o que causa uma descrença na essencialidade da presença do ser humano no processo de desenvolvimento - este, considerando a visão moderna, relacionado puramente ao avanço tecnológico.
O indivíduo, sentindo-se descartado, entra em uma crise existencial e um desespero no que se diz às relações interpessoais, o que gera um desencaixe de identidade. Ele está, de repente, solto pelo meio social, em meio a um cardume: incerteza.
Daí pode-se iniciar um processo de "retrocesso" a visões de décadas passadas, como a de 60, pela busca de uma ideologia de vida, que motive o sujeito a seguir sua vida. Uma busca por algum sentimento nesse mundo de razão, algum misticismo nessa secura ideológica que é a pós-modernidade...