Thorstein Veblen
Teoria da Classe Ociosa
Cap. I
As classes altas ocupam as funções meramente honoríficas da sociedade. Elas se excluem terminantemente de funções industriais, pois estas estão reservadas às classes inferiores, as quais, inicialmente, se incluíam escravos e mulheres. Essas ocupações da classe ociosa se subdividem em governamentais, guerreiras, religiosas e esportivas, qualquer atividade a mais iria contra o bom senso ou os costumes da comunidade.
As funções da classe mais baixa podem apresentar uma hierarquia à medida que a ocupação remeta mais ou menos diretamente às funções da classe ociosa, como a fabricação e cuidado de armas e objetos sagrados.
Os diferentes níveis hierárquicos da divisão do trabalho dizem respeito às fazes econômicas em que uma sociedade se encontra. À medida que as diferenciações são concretizadas e o trabalho se especializa, a linha entre funções industriais e não-industriais se define mais acentuadamente.
Em uma cultura mais “avançada” nesse quesito, apresenta-se também um caráter de competição e de inferioridade entre os sexos: o homem geralmente é dispensado das tarefas industriais, por participar mais ativamente de atividades como a guerra, que exige força e disposição à agressão – seu esforço não se equiparia ao trabalho rotineiro e não-digno feminino. As funções dignas são as não-servis, não-cotidianas.
Em culturas mais “primitivas”, pode-se observar uma diminuição ou mesmo ausência de hierarquias no grupo. A eficiência de um membro se dá pelo trabalho mais útil à comunidade, e a emulação é no serviço industrial. Seu sistema econômico não apresenta a propriedade individual como traço dominante. Muitas vezes isto é resultado de um retrocesso de um estágio mais avançado. Essa postura mais pacífica, todavia, torna a comunidade mais propensa a ataques agressivos.
Nesta transição da selvageria (“primitiva”) para a barbárie (“avançada”) deu-se início a instituição da classe ociosa. O que concretizou isto foi a adoção do modo de vida predatório – pois a força e o troféu (presa) passam a ser elemento de proeza – e a subsistência de modo a uma parte do grupo não precisar realizar grande esforço.
Vale ressaltar que o fundamento da discriminação se modifica de acordo com o interesse. Nos estágios primários o interesse era coletivo e, portanto, a proeza individual se concentrava nas tarefas cotidianas, para a sobrevivência da comunidade. Muda o fim e, com ele, o ponto de vista dominante, quando a cultura evolui. O senso comum gradualmente incorpora novos padrões com o tempo e deteriora antigos aos poucos.
Hoje (época do livro), para o senso comum, o esforço é industrial quando seu fim último é a utilização de objetos não-humanos, por meio da exploração do meio não-humano. É o conceito de domínio industrial sobre a natureza, que limita o homem da criação bruta. Outrora a relação de conflito se dava pelo homem e seu alimento, e, nos tempos modernos, por o que é animado e o que é inerte.
Tudo que é ativo e animado, na mentalidade bárbara, se equipara ao humano, com o qual ele lida de forma e de eficiência diferentes do que com o que é inerte: tais fenômenos defrontados, quando bem-sucedidos, são encarados como atividade digna e acima do comum.
Desse modo, o bárbaro se divide em classe da proeza – utilidades para seus próprios fins de energia – e classe da indústria – criação a partir da matéria bruta que lhe é dada e, portanto, menos digna. Essa distinção é reforçada principalmente quando se entra em contato com outros grupos.
Este habitat bárbaro, concentrado na força (caça a grandes animais, etc.), exige um maior contato com as virtudes masculinas, e desse modo se enraíza um processo cumulativo de adaptação seletiva: a função da mulher passa a ser “moldar” a matéria, na qual não há afirmação da força de forma vil, e a do homem, massacrar os concorrentes refratários, o que cabe à sua violência, sua natureza de agente. Daí se reforça o conceito de valia e honra.
Esta essência agente tem por objetivo um fim último, impessoal, que busca através de uma ação eficaz e com o menos esforço fútil ou desperdício. Isto pode ser denominado de “instinto de artesanato”. Entretanto, quando se insere no contexto uma comparação entre indivíduos, o resultado sempre será de luta, de demonstração competitiva de força. Este estímulo à emulação da sociedade predatória faz com que o fim último seja desviado para o sucesso por si próprio, e quem o obtém é prestigiado. Da mesma forma, quem não o obtém e se reduz ao trabalho industrial adquire caráter negativo. O trabalho prestado a outro implica na obtenção de bens que não se é dono, que não se “mereceu”.
A competição é a forma mais aceita de auto-afirmação pelo grupo, e a vitória – o ato honorífico reconhecido – se prova pela posse de troféus. Estes podem ser artigos prestigiosos, de maior custo. Logo, a sociedade atinge um estágio no qual a guerra não só é aceita, mas característica. A luta é inerente à história social humana, já que mesmo nas culturas mais “primitivas” e pacíficas havia uma competição entre sexos, mas é questionável o hábito de julgar os fatos sob o padrão da luta.
A diferença espiritual na transição entre a fase pacífica e a predatória coincidiu com o desenvolvimento industrial para além da subsistência, principalmente no uso de instrumentos. Nisso, havia agora uma margem pela qual se podia lutar. Daí desenvolve-se uma série de facilitações para a implantação do hábito predatório, como regras e normas que favorecem este modo.
Mostrando postagens com marcador veblen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador veblen. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 24 de novembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Emulação Pecuniária
Thorstein Veblen
Teoria da Classe Ociosa
Cap. II
Anteriormente à vida predatória, a proeza de um homem era tida como do grupo, e ele era apenas guardião da honra coletiva.
Quando a noção de propriedade em si, especialmente a individual – e a idéia do direito a tal –, surge no pensamento social humano, a classe ociosa se desenvolve paralelamente.
Esta divisão se deu, inicialmente, pela divisão do trabalho por sexos; a propriedade, por sua vez, se expressou de forma clara através da posse da mulher pelo homem. Esta posse foi associada a um troféu pela tomada violenta da mulher do inimigo – “casamento-propriedade”, sob chefia masculina. Essa noção de posse se estendeu à escravidão de modo geral e, mais tarde, a objetos, produtos de sua indústria – o sistema de propriedade sobre bens.
Uma vez instalado este sistema, começa a luta entre homens pela posse de bens, que vai além da necessidade de subsistência. Ao mesmo tempo, a indústria evolui de maneira cada vez mais eficiente, o que faz com que a comunidade crie um excedente de riquezas. Desse modo, a competição se agrava e é almejado o aumento de conforto individual. Além disso, há o componente coletivo na motivação para a aquisição de riqueza: busca-se a honra da posse propriamente dita, que destaca superiormente o dono do resto da comunidade – desenvolve-se a comparação odiosa dentro do grupo.
A propriedade, por conseguinte, se torna prova de sucesso pessoal. Através da busca por essa emulação, a acumulação de bens ocupa o lugar dos troféus predatórios como índice de estima. Desde que o indivíduo seja dono dos objetos que porta, independentemente de terem sido adquiridos por mérito próprio ou herança – esta última sugere ainda mais status pelo fato de obter riqueza sem esforço –, ele é digno de honra se estes se sobrepõem às posses dos outros membros. Ele receberá respeito da comunidade. Os demais, por sua vez, sentem sua auto-estima ferida ao deparar-se com uma coleção pessoal que se equipara apenas com o parâmetro do comum. Portanto, a propriedade também se torna requisito de respeito próprio, pois a auto-satisfação está intimamente relacionada com a sua estima avaliada pelo grupo, cujo critério é material.
A manifestação da força persiste no critério popular de eficiência predatória pelo hábito de pensamento. Porém, sua freqüência diminui consideravelmente, já que o conceito de posição social privilegiada está associado com a ausência ou diminuição de esforço físico.
Apesar de a aquisição material ter a capacidade de elevar o status de um sujeito, não há um padrão de suficiência preciso para tal. Ou seja, por mais que ele acumule, ele se acostumará com a riqueza e a satisfação por meio desta cessa. Desse modo, ele tende a aumentar a mesma, o que produzirá um novo critério de suficiência e novos parâmetros do normal – nova classificação pecuniária perante os outros membros. Assim, o desejo pela acumulação nunca se extingue, assim como as necessidades individuais, pois estas se baseiam no sobrepujar de um em relação aos demais.
Alcançado este nível da emulação, o poder obtido através da riqueza se torna por si só motivo para a acumulação mais intensa desta. Paralelamente, o repúdio à atividade fútil ainda revigora, e a aquisição de bens permanece a maneira mais fácil de obter estima social. Nisso, as auto-estimas dos indivíduos entram cada vez mais em colisão, fazendo com que o instinto de artesanato, de realização de ações pecuniárias, se apóie na emulação invejosa de um em relação a outros. O sucesso, portanto, se torna o fim último de todas as ações.
Teoria da Classe Ociosa
Cap. II
Anteriormente à vida predatória, a proeza de um homem era tida como do grupo, e ele era apenas guardião da honra coletiva.
Quando a noção de propriedade em si, especialmente a individual – e a idéia do direito a tal –, surge no pensamento social humano, a classe ociosa se desenvolve paralelamente.
Esta divisão se deu, inicialmente, pela divisão do trabalho por sexos; a propriedade, por sua vez, se expressou de forma clara através da posse da mulher pelo homem. Esta posse foi associada a um troféu pela tomada violenta da mulher do inimigo – “casamento-propriedade”, sob chefia masculina. Essa noção de posse se estendeu à escravidão de modo geral e, mais tarde, a objetos, produtos de sua indústria – o sistema de propriedade sobre bens.
Uma vez instalado este sistema, começa a luta entre homens pela posse de bens, que vai além da necessidade de subsistência. Ao mesmo tempo, a indústria evolui de maneira cada vez mais eficiente, o que faz com que a comunidade crie um excedente de riquezas. Desse modo, a competição se agrava e é almejado o aumento de conforto individual. Além disso, há o componente coletivo na motivação para a aquisição de riqueza: busca-se a honra da posse propriamente dita, que destaca superiormente o dono do resto da comunidade – desenvolve-se a comparação odiosa dentro do grupo.
A propriedade, por conseguinte, se torna prova de sucesso pessoal. Através da busca por essa emulação, a acumulação de bens ocupa o lugar dos troféus predatórios como índice de estima. Desde que o indivíduo seja dono dos objetos que porta, independentemente de terem sido adquiridos por mérito próprio ou herança – esta última sugere ainda mais status pelo fato de obter riqueza sem esforço –, ele é digno de honra se estes se sobrepõem às posses dos outros membros. Ele receberá respeito da comunidade. Os demais, por sua vez, sentem sua auto-estima ferida ao deparar-se com uma coleção pessoal que se equipara apenas com o parâmetro do comum. Portanto, a propriedade também se torna requisito de respeito próprio, pois a auto-satisfação está intimamente relacionada com a sua estima avaliada pelo grupo, cujo critério é material.
A manifestação da força persiste no critério popular de eficiência predatória pelo hábito de pensamento. Porém, sua freqüência diminui consideravelmente, já que o conceito de posição social privilegiada está associado com a ausência ou diminuição de esforço físico.
Apesar de a aquisição material ter a capacidade de elevar o status de um sujeito, não há um padrão de suficiência preciso para tal. Ou seja, por mais que ele acumule, ele se acostumará com a riqueza e a satisfação por meio desta cessa. Desse modo, ele tende a aumentar a mesma, o que produzirá um novo critério de suficiência e novos parâmetros do normal – nova classificação pecuniária perante os outros membros. Assim, o desejo pela acumulação nunca se extingue, assim como as necessidades individuais, pois estas se baseiam no sobrepujar de um em relação aos demais.
Alcançado este nível da emulação, o poder obtido através da riqueza se torna por si só motivo para a acumulação mais intensa desta. Paralelamente, o repúdio à atividade fútil ainda revigora, e a aquisição de bens permanece a maneira mais fácil de obter estima social. Nisso, as auto-estimas dos indivíduos entram cada vez mais em colisão, fazendo com que o instinto de artesanato, de realização de ações pecuniárias, se apóie na emulação invejosa de um em relação a outros. O sucesso, portanto, se torna o fim último de todas as ações.
Assinar:
Postagens (Atom)