ao ler um nome, calafrio
ao não lê-lo, pio
sim, mal me recordo de certos traços
mas isso é só porque luto tanto por abraços
buscando tão exaustivamente um macio
para que nutra a qualquer custo
a fadiga desta rotina tombou por terra
por organismo esse que pôs fogo na semente
estava por germinar mas encontrou a guerra -
alhures e dentro, tornou-se traiçoeiro como serpente
vagar sem proteção por este busto.
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quarta-feira, 1 de junho de 2011
sexta-feira, 22 de abril de 2011
ecos silenciosos
acorrentada em rede de forças
que convergem para passado e futuro
caldeirão de contradições pulsantes.
poção cinza-escura,
cimento que petrificará a posição fetal
e a única vida que de lá brotará
será o salgado suco da minha melancolia.
corro por um abraço único,
por um carinho que tanto conhecia
e congelo-me a caminho
pois mais uma vez, seria pedra.
sinto-me em regressão
em precipício
em náuseas com o coração pelo pescoço;
olho os cachos e tudo que mais quero
é enterrar-me neles...
como se libertar dessa areia movediça
desse externamento de necessidades
quando não há qualquer luz em meu íntimo?
a noite lá tomba,
sem lua, sem estrelas, sem meteoros
sem chão, sem teto
um breu sem um peito pra se apoiar.
quem poderá desenterrar minha carcaça abandonada?
apenas eu, apenas se a chama íntima se reascender;
mas e quando não há lenha para tais faíscas?
e quando o calor já não mais se conhece?
como esfregar meu próprios gravetos?
frente ao penhasco, peço socorro
e voz nenhuma atende
nem mesmo o próprio eco
que convergem para passado e futuro
caldeirão de contradições pulsantes.
poção cinza-escura,
cimento que petrificará a posição fetal
e a única vida que de lá brotará
será o salgado suco da minha melancolia.
corro por um abraço único,
por um carinho que tanto conhecia
e congelo-me a caminho
pois mais uma vez, seria pedra.
sinto-me em regressão
em precipício
em náuseas com o coração pelo pescoço;
olho os cachos e tudo que mais quero
é enterrar-me neles...
como se libertar dessa areia movediça
desse externamento de necessidades
quando não há qualquer luz em meu íntimo?
a noite lá tomba,
sem lua, sem estrelas, sem meteoros
sem chão, sem teto
um breu sem um peito pra se apoiar.
quem poderá desenterrar minha carcaça abandonada?
apenas eu, apenas se a chama íntima se reascender;
mas e quando não há lenha para tais faíscas?
e quando o calor já não mais se conhece?
como esfregar meu próprios gravetos?
frente ao penhasco, peço socorro
e voz nenhuma atende
nem mesmo o próprio eco
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
deságüe
frente a uma certeza, tremo.
certeza esta já remota, pretérita
mas certeza ainda assim.
o meu doar corrente mais uma vez tropeça a mim
quebra-me um dente, esparrama alecrim
enfeita-me com melancia cortada
assim como meus pulsos em sonhos.
pesadelo?
não.
apenas um luto pelo qual aclamava
nas profundezas da agonia
um ar, um pontapé
e pitada de fé.
certeza esta já remota, pretérita
mas certeza ainda assim.
o meu doar corrente mais uma vez tropeça a mim
quebra-me um dente, esparrama alecrim
enfeita-me com melancia cortada
assim como meus pulsos em sonhos.
pesadelo?
não.
apenas um luto pelo qual aclamava
nas profundezas da agonia
um ar, um pontapé
e pitada de fé.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
lacuna entre beijos
passei pelos pretéritos com uma lacuna física
mas o presente tem trazindo outros estilos
outros buracos, outros brancos
que são os por dentre os beijos na bochecha.
a lacuna do calor e dos suspiros
dos anjos encobrindo-nos com suas asas
do meu refúgio nas ondas loiro-escuras
do laço entre pernas na cálida penumbra
do afago ronronoso ao raiar da manhã
a lacuna tão querida a ti
tão aclamada, tão imperativa
que me faz repelir-me para longe
em nome de tua realização
de tua completude.
i'm going back to the start
mas o presente tem trazindo outros estilos
outros buracos, outros brancos
que são os por dentre os beijos na bochecha.
a lacuna do calor e dos suspiros
dos anjos encobrindo-nos com suas asas
do meu refúgio nas ondas loiro-escuras
do laço entre pernas na cálida penumbra
do afago ronronoso ao raiar da manhã
a lacuna tão querida a ti
tão aclamada, tão imperativa
que me faz repelir-me para longe
em nome de tua realização
de tua completude.
i'm going back to the start
mágoas gosmentas
página em branco
me atormenta e me sacode
a fim de soltar a costura entre o palmo e a boca.
ah, o terror de que esses laços se desfaçam!
que a cachoeira de cola polar se deslanche
num avalanche de cutucadas e puxões.
ai de mim,
criatura esponjosa
pegajosa
repulsiva aos olhos instigantes
cujos braços esticados a ninguém apetece
como imerso em bolha verde
achatando castelos de areia ao atravessar
andando em direção ao amor
coberto por gosma mal cheirosa.
nem um abraço, nem um beijo
o monstro tem chance de ganhar.
corcunda de angústia, umidecem os olhos tristonhos
águas das mágoas dissolvem a costura
e os braços carentes são enrolados em torno de si.
o verde líquido então jorra mais e mais,
grudando pelas pernas
e pelo tronco
pescoço
até que enfim o monstro é encurralado
e afogado por sua própria carência,
em sua bolha
em sua solidão.
me atormenta e me sacode
a fim de soltar a costura entre o palmo e a boca.
ah, o terror de que esses laços se desfaçam!
que a cachoeira de cola polar se deslanche
num avalanche de cutucadas e puxões.
ai de mim,
criatura esponjosa
pegajosa
repulsiva aos olhos instigantes
cujos braços esticados a ninguém apetece
como imerso em bolha verde
achatando castelos de areia ao atravessar
andando em direção ao amor
coberto por gosma mal cheirosa.
nem um abraço, nem um beijo
o monstro tem chance de ganhar.
corcunda de angústia, umidecem os olhos tristonhos
águas das mágoas dissolvem a costura
e os braços carentes são enrolados em torno de si.
o verde líquido então jorra mais e mais,
grudando pelas pernas
e pelo tronco
pescoço
até que enfim o monstro é encurralado
e afogado por sua própria carência,
em sua bolha
em sua solidão.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
cobertorzinho
feito cobertor transicional jazo no fundo do armário
nadando congelada pelas trevas do esquecimento,
à mercê de qualquer tenro desejo de acolhimento
que o faça abrir as portas
e iluminar meu rosto
com ternura tal que diga:
ah, cobertorzinho
como pude passar tantos milênios sem abraçá-lo?
e assim meu tecido tremerá de sorrisos
na esperança de que seja uma vez por todas útil
de que meu carinho seja necessário e almejado,
assim como a uma criança e para sempre será.
mas meu dono já cresceu
meu trabalho se deu por finito.
e após alguns minutos de aconchego ele se realiza
ao sentir minha textura e meu aroma, em um momento de fraqueza
a partir dos quais recobre as energias
para mais alguns anos de potência.
assim, o cobertor recebe um último abraço
antes de ser devolvido àquele coração de traças
que o devorará, vivo, pouco a pouco
sem que aquele o perceba
pois sua vida segue, e a do cobertor, extingue.
nadando congelada pelas trevas do esquecimento,
à mercê de qualquer tenro desejo de acolhimento
que o faça abrir as portas
e iluminar meu rosto
com ternura tal que diga:
ah, cobertorzinho
como pude passar tantos milênios sem abraçá-lo?
e assim meu tecido tremerá de sorrisos
na esperança de que seja uma vez por todas útil
de que meu carinho seja necessário e almejado,
assim como a uma criança e para sempre será.
mas meu dono já cresceu
meu trabalho se deu por finito.
e após alguns minutos de aconchego ele se realiza
ao sentir minha textura e meu aroma, em um momento de fraqueza
a partir dos quais recobre as energias
para mais alguns anos de potência.
assim, o cobertor recebe um último abraço
antes de ser devolvido àquele coração de traças
que o devorará, vivo, pouco a pouco
sem que aquele o perceba
pois sua vida segue, e a do cobertor, extingue.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
poço do absurdo
espíritos do cansaço arrastam-me para o poço
poço arenoso dos arrependimentos
caio, e agonizo por uma brecha
no meu coração e nos dos que me amam.
recaio em reclusão,
tento abraçar as vidas no entorno
mas são apenas águas-vivas
que aterrorizam-se com o meu amar
e assassinam-me com o seu queimar...
desmaio então no duro fundo do poço
semicerro os olhos e despeço-me das memórias
de lá de cima, do mundo novo e velho
ao seguir com os braços os reflexos da luz
que dançam pelas minhas pernas
varrendo-me para qualquer outro lugar
algum outro algoritmo
que me reajustará a outros sofrimentos.
poço arenoso dos arrependimentos
caio, e agonizo por uma brecha
no meu coração e nos dos que me amam.
recaio em reclusão,
tento abraçar as vidas no entorno
mas são apenas águas-vivas
que aterrorizam-se com o meu amar
e assassinam-me com o seu queimar...
desmaio então no duro fundo do poço
semicerro os olhos e despeço-me das memórias
de lá de cima, do mundo novo e velho
ao seguir com os braços os reflexos da luz
que dançam pelas minhas pernas
varrendo-me para qualquer outro lugar
algum outro algoritmo
que me reajustará a outros sofrimentos.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
dedos entrelaçados em solidão
dedos entrelaçados em solidão
ilustram a rede de espetáculos na qual estamos encarcerados
retorncendo para que lá encontremos algo vivo
que nos salve do desespero
resgate para um mundo incandescente
mais do que reluzir,
mais do que refletir.
cá estamos então duas folhas de papel em branco
uma frente à outra, rezando por qualquer centelha
que possa emergir num fogaréu
e nos mova, nos cative e nos consuma
para que pelo menos uma vez vivamos...
ilustram a rede de espetáculos na qual estamos encarcerados
retorncendo para que lá encontremos algo vivo
que nos salve do desespero
resgate para um mundo incandescente
mais do que reluzir,
mais do que refletir.
cá estamos então duas folhas de papel em branco
uma frente à outra, rezando por qualquer centelha
que possa emergir num fogaréu
e nos mova, nos cative e nos consuma
para que pelo menos uma vez vivamos...
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vazio
domingo, 12 de dezembro de 2010
broca
minha existência é marcada por pingos salgados.
a lacuna se desenrola em um continuum
frente ao fantasma do seu corpo nu
cada centímetro todo o amor do mundo.
nada é o meu entorno,
é o lado direito solitário da cama
é o que corrói poro por poro
abocanhando um tiquinho a cada dia
broca da minha condição humana,
do meu desespero e do meu absurdo.
cílios molhados umidecem minha carência,
sonhos estuprados soltam farelo
sujam meus lençóis e não consigo mais dormir
aterrorizada ao lembrar da manhã
e dos abraços que não receberei
dos cabelos em que não me afagarei
dos planos que não cumprirei...
a lacuna se desenrola em um continuum
frente ao fantasma do seu corpo nu
cada centímetro todo o amor do mundo.
nada é o meu entorno,
é o lado direito solitário da cama
é o que corrói poro por poro
abocanhando um tiquinho a cada dia
broca da minha condição humana,
do meu desespero e do meu absurdo.
cílios molhados umidecem minha carência,
sonhos estuprados soltam farelo
sujam meus lençóis e não consigo mais dormir
aterrorizada ao lembrar da manhã
e dos abraços que não receberei
dos cabelos em que não me afagarei
dos planos que não cumprirei...
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
buñuelísticamente
suas vozes me chamam,
como chama o pintainho por sua mãe
carente no ninho
por um afago, por um carinho
uma asa que o cubra.
é assim que amoleço ao ouvi-los
um pedaço de pão embebido em achocolatado
um doce-com-salgado
que ninguém quer e ninguém gosta
apenas por pseudo-gourmets apreciado
degustado como peça única na prateleira
apenas para ser olhada, sem eira nem beira.
como chama o pintainho por sua mãe
carente no ninho
por um afago, por um carinho
uma asa que o cubra.
é assim que amoleço ao ouvi-los
um pedaço de pão embebido em achocolatado
um doce-com-salgado
que ninguém quer e ninguém gosta
apenas por pseudo-gourmets apreciado
degustado como peça única na prateleira
apenas para ser olhada, sem eira nem beira.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
ode às minhas lagostas
amo dois sítios,
um distante e próximo
e outro próximo e distante.
desfaço-me para me ater a algum,
mas deparo-me com a indisposição de fundir-se em um
como se o meu amor fosse demasiado urrante
ou não amarrado o bastante.
nas rimas me acolho
à procura de um canto escuro
onde possa espiar no mágico olho
os olhos de cada sítio, vida por vida
e muro por muro.
mesmo que não me amem
queria poder desejá-las o meu melhor
e que um dia talvez tracemos esse ardor de amor
tão lindo, meu bem
tão puro...
um distante e próximo
e outro próximo e distante.
desfaço-me para me ater a algum,
mas deparo-me com a indisposição de fundir-se em um
como se o meu amor fosse demasiado urrante
ou não amarrado o bastante.
nas rimas me acolho
à procura de um canto escuro
onde possa espiar no mágico olho
os olhos de cada sítio, vida por vida
e muro por muro.
mesmo que não me amem
queria poder desejá-las o meu melhor
e que um dia talvez tracemos esse ardor de amor
tão lindo, meu bem
tão puro...
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terça-feira, 30 de novembro de 2010
maçãs enrubecidas
vergonha:
é o que te recolhe e te encolhe
quebrada
catando os resquícios de uma emoção
que esforça-se para abraçar
e apertar, até algo puro escapulir
tão puro que me faça mais do que lacrimejar
eu quero é gritar, é urrar
por tudo o que me aflige
por mais simbólico e insignificante que seja!
a couraça é tatuada pelas mínimas agulhas
que unidas, cravam
em sangue, em chamas
a angústia.
tímido sentimento que lhe devora;
e lhe amassa
até que alguém o rasgue
o enovelado em inutilidade
o caráter mastigado
é o que te recolhe e te encolhe
quebrada
catando os resquícios de uma emoção
que esforça-se para abraçar
e apertar, até algo puro escapulir
tão puro que me faça mais do que lacrimejar
eu quero é gritar, é urrar
por tudo o que me aflige
por mais simbólico e insignificante que seja!
a couraça é tatuada pelas mínimas agulhas
que unidas, cravam
em sangue, em chamas
a angústia.
tímido sentimento que lhe devora;
e lhe amassa
até que alguém o rasgue
o enovelado em inutilidade
o caráter mastigado
terra salgada
abatida
batida enquanto à parte
os golpes da batedora me remexeram,
violentaram-me como alarme que estupra meus sonhos de madrugada
e lhes trazem às sombras
sem referência, sem entorno
um ponto no escuro.
fenômeno singular que foi estraçalhado,
restando nada mais que migalhas
do que um dia seria para ser.
enquanto finjo uma vida objetiva
assisto com os ouvidos seu laço
cujo nó me impede de entrar,
e com isso amarra também minhas doces formas oníricas
de modo que eu permaneça com a companhia, senão, de mim
de minhas tristezas e medos
que enfim devo encarar sem raízes...
batida enquanto à parte
os golpes da batedora me remexeram,
violentaram-me como alarme que estupra meus sonhos de madrugada
e lhes trazem às sombras
sem referência, sem entorno
um ponto no escuro.
fenômeno singular que foi estraçalhado,
restando nada mais que migalhas
do que um dia seria para ser.
enquanto finjo uma vida objetiva
assisto com os ouvidos seu laço
cujo nó me impede de entrar,
e com isso amarra também minhas doces formas oníricas
de modo que eu permaneça com a companhia, senão, de mim
de minhas tristezas e medos
que enfim devo encarar sem raízes...
sem flor, sem perfume, sem rosa, sem nada
frente à derrota recolho-me a meus sonhos
dia último do mês penúltimo,
novembro me trouxe bons mares.
agora a maré se resguarda,
a bruma dissolve as expectativas
que fizeram-se espuma.
de onde vem a calma
que agora viola-me com falos de seda
silenciando-me com um pano quimificado
que corrói, penetra
e rasga meu âmago
até o capotar no chão
sozinha e esquecida
pois não há braços para os quais cair.
renegada, polvilho a pólvora que povoa o cio
e retenho-a retalhada,
como quem aborta os próprios desejos
em nome da sanidade
com as mãos entre as coxas,
e a rosa de hiroshima entre as mãos...
dia último do mês penúltimo,
novembro me trouxe bons mares.
agora a maré se resguarda,
a bruma dissolve as expectativas
que fizeram-se espuma.
de onde vem a calma
que agora viola-me com falos de seda
silenciando-me com um pano quimificado
que corrói, penetra
e rasga meu âmago
até o capotar no chão
sozinha e esquecida
pois não há braços para os quais cair.
renegada, polvilho a pólvora que povoa o cio
e retenho-a retalhada,
como quem aborta os próprios desejos
em nome da sanidade
com as mãos entre as coxas,
e a rosa de hiroshima entre as mãos...
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Livraria
em: Aurora Borealis ou Luzes do Norte
(a editar)
A umas três estações de metrô jazia o esconderijo paradisíaco da minha alma. Era uma livraria, daquelas que, ao dar o primeiro passo para dentro, respira-se cultura e sutileza. Residia numa espécie de galeria privada, secreta, que abrigava a livraria, um pequeno café e um grande cinema ao lado. Tantas vezes fugia do recinto dos artistas com o único veemente desejo de assentar-me em própria introspecção por horas, e refugiava-me ali. Ao abrir a porta da galeria penetrava paulatinamente em minha alma; ao aproximar-me dos três ambientes, preenchia-me de exaltação e anseio, pois ia de encontro à doce solidão.
Chegando à livraria, o aroma de livros novos sempre me contagiava e sentia que poderia viver naquele recanto por semanas. Lá, o tempo congelava e jamais me ocorria de checar um relógio; tampouco sentada em uma das mesas degustando o mais sublime cappuccino do mundo, cujos primeiros goles levavam minhas papilas gustativas a um delírio tal que era imprescindível a sua lenta apreciação; assim como suaves mas vigorantes inspirações enquanto o provava - elas fizeram-se exigência irrevogável de meu olfato. Fiel obediente de cada implacável demanda de meus sentidos, sentada eu permanecia diante de meu cappuccino por tempo incalculável, encostando levemente o nariz à xícara a cada vez que a levantava, a fim de captar aquela forte fragrância para minhas doces memórias, para logo em seguida saborear o néctar que seria cunhado nas profundas nostalgias que minha mente prega até hoje.
Naqueles momentos, tinha uma pátria; eu pertencia aos livros e suas possibilidades, meus compatriotas eram as pessoas imersas em si, em qualquer seção: filosofia, psicologia, antropologia, ficção, biografias, arte ou até mesmo história, qualquer leitor tão comovido pelas letras impressas em mãos a ponto de sentar-se na mesinha ao centro e deixar-se mergulhar. Minha alma me sussurrava: aqui é o seu lar – dentro de ti. Encontrava-me em mim em qualquer parte da galeria.
(a editar)
A umas três estações de metrô jazia o esconderijo paradisíaco da minha alma. Era uma livraria, daquelas que, ao dar o primeiro passo para dentro, respira-se cultura e sutileza. Residia numa espécie de galeria privada, secreta, que abrigava a livraria, um pequeno café e um grande cinema ao lado. Tantas vezes fugia do recinto dos artistas com o único veemente desejo de assentar-me em própria introspecção por horas, e refugiava-me ali. Ao abrir a porta da galeria penetrava paulatinamente em minha alma; ao aproximar-me dos três ambientes, preenchia-me de exaltação e anseio, pois ia de encontro à doce solidão.
Chegando à livraria, o aroma de livros novos sempre me contagiava e sentia que poderia viver naquele recanto por semanas. Lá, o tempo congelava e jamais me ocorria de checar um relógio; tampouco sentada em uma das mesas degustando o mais sublime cappuccino do mundo, cujos primeiros goles levavam minhas papilas gustativas a um delírio tal que era imprescindível a sua lenta apreciação; assim como suaves mas vigorantes inspirações enquanto o provava - elas fizeram-se exigência irrevogável de meu olfato. Fiel obediente de cada implacável demanda de meus sentidos, sentada eu permanecia diante de meu cappuccino por tempo incalculável, encostando levemente o nariz à xícara a cada vez que a levantava, a fim de captar aquela forte fragrância para minhas doces memórias, para logo em seguida saborear o néctar que seria cunhado nas profundas nostalgias que minha mente prega até hoje.
Naqueles momentos, tinha uma pátria; eu pertencia aos livros e suas possibilidades, meus compatriotas eram as pessoas imersas em si, em qualquer seção: filosofia, psicologia, antropologia, ficção, biografias, arte ou até mesmo história, qualquer leitor tão comovido pelas letras impressas em mãos a ponto de sentar-se na mesinha ao centro e deixar-se mergulhar. Minha alma me sussurrava: aqui é o seu lar – dentro de ti. Encontrava-me em mim em qualquer parte da galeria.
sábado, 3 de julho de 2010
goteira (i'm going back to the start)
o nosso sol de junho está se pondo;
sinto-me entrar num cânion de velhos erros
enquanto gozo o doce auge de fogos de artifícios
algo está para acontecer - afinal
mediante esse mar de linhas coloridas e tediosas
plástico bolha:
divertidas mas vazias.
esperando debaixo de uma clareira, por dentre verdes e amarelos
jaz o hedonista solitário, encondendo-se de seus prazeres
caleidoscópios o divertem
a embriaguez química o aliena;
dos si-mesmos em grutas escuras.
tem medo das estalagtites que o devorarão
e do vômito ácido que corroerá seus pés.
e então?
sinto-me entrar num cânion de velhos erros
enquanto gozo o doce auge de fogos de artifícios
algo está para acontecer - afinal
mediante esse mar de linhas coloridas e tediosas
plástico bolha:
divertidas mas vazias.
esperando debaixo de uma clareira, por dentre verdes e amarelos
jaz o hedonista solitário, encondendo-se de seus prazeres
caleidoscópios o divertem
a embriaguez química o aliena;
dos si-mesmos em grutas escuras.
tem medo das estalagtites que o devorarão
e do vômito ácido que corroerá seus pés.
e então?
domingo, 6 de junho de 2010
Stella foi colher amoras e voltou com uma Amélie.
As madeixas pretas lá jaziam, na mais eterna doce melancolia. Só, envolta por sentimentos de amargura, de seu cantinho erosivo não sairia : era sua porta (trancada) para seu próprio mundo. Correntes de giletes a enclausuravam em um mausoléu nobre, criada por ela para ela mesma. Seu mórbido visage e seus olhos sem esperança avistaram o espelho dos narcisos, e lá se afundou; de nada mais necessita além de seu espetáculo sofrido, a cerimônia de premiação dos maiores pesares cujo troféu foi dado a ela, por ela. O mundo lá fora era frio, irreal, quebrado e traiçoeiro; e o pior de tudo, lá, ela teria que renunciar sua tristeza.
Que lhe daria o amadurecimento em troca do abandono do doce sofrimento?
Que lhe daria o amadurecimento em troca do abandono do doce sofrimento?
sexta-feira, 23 de abril de 2010
crushed (sem título)
crushed like a bug in the ground
lá vou eu, a com os menores problemas do mundo
histérica e inútil
gritando por um que ultrapasse o vidro
se rasgue tentando, mas insista
e ensangüentado(a), lance a pergunta:
como você se sente?
lá vou eu, a com os menores problemas do mundo
histérica e inútil
gritando por um que ultrapasse o vidro
se rasgue tentando, mas insista
e ensangüentado(a), lance a pergunta:
como você se sente?
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solidão
segunda-feira, 15 de março de 2010
Estucada na Mancha
Pendulando em opiniões, vou nadando
no aquário do Canal, e os anos vão passando
e eu marrei
porque estou tão doente disso tudo...
se lar é onde mora o seu coração
por que sou arremessada
de novo e de novo
de volta para o Atlântico?
Acorrentada à mancha, alterno de terras
de tempos em tempos
pra ver qual me vai.
mas algumas vezes tento ver
qual me terna...
e tudo converge num transtorno patrial
a teia que eu me fiz construir
da qual não consigo mais sair.
Alma extraviada continua sua busca
pela nação que encha seus sapatos
para ela sempre será errante
e errante ela para sempre será.
obs.:
stuck / la manche
j'en ai marre / i'm so sick of it
quelle me va / which one suits me
fill its shoes
for it will always be
no aquário do Canal, e os anos vão passando
e eu marrei
porque estou tão doente disso tudo...
se lar é onde mora o seu coração
por que sou arremessada
de novo e de novo
de volta para o Atlântico?
Acorrentada à mancha, alterno de terras
de tempos em tempos
pra ver qual me vai.
mas algumas vezes tento ver
qual me terna...
e tudo converge num transtorno patrial
a teia que eu me fiz construir
da qual não consigo mais sair.
Alma extraviada continua sua busca
pela nação que encha seus sapatos
para ela sempre será errante
e errante ela para sempre será.
obs.:
stuck / la manche
j'en ai marre / i'm so sick of it
quelle me va / which one suits me
fill its shoes
for it will always be
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
suficiente?
Ter tudo, sentir tudo, ser tudo -
será o suficiente?
será a fórmula plena da felicidade a satisfação plena material e maternal; experenciar todos os sonhos alheios e mesmo os seus próprios, como uma cachoeira em queda d'água, com todas as suas forças, até doer; vestir um carnaval de personagens sociais, revolucionando passo a passo um novo palco?
creio que não.
tudo pode ser muito fantasioso, alusório, mas tudo depende do ator social.
suas respostas emocionais, a força de captação e estabilidade da sua ínsula anterior, o modo de encarar o seu hipocampo e o nível de poder controlador da sua amígdala...
uma única sombra pode colocar tudo abaixo.
uma desintegração,
uma desilusão,
uma desmotivação
.
.
por que não?
o desespero, às vezes, é mais forte que a auto-realização
a emoção, às vezes, é maior que o mundo pode suportar
alguns dirão: por que choras, mas não já tens tudo o que queres?
...
sim.
será o suficiente?
será a fórmula plena da felicidade a satisfação plena material e maternal; experenciar todos os sonhos alheios e mesmo os seus próprios, como uma cachoeira em queda d'água, com todas as suas forças, até doer; vestir um carnaval de personagens sociais, revolucionando passo a passo um novo palco?
creio que não.
tudo pode ser muito fantasioso, alusório, mas tudo depende do ator social.
suas respostas emocionais, a força de captação e estabilidade da sua ínsula anterior, o modo de encarar o seu hipocampo e o nível de poder controlador da sua amígdala...
uma única sombra pode colocar tudo abaixo.
uma desintegração,
uma desilusão,
uma desmotivação
.
.
por que não?
o desespero, às vezes, é mais forte que a auto-realização
a emoção, às vezes, é maior que o mundo pode suportar
alguns dirão: por que choras, mas não já tens tudo o que queres?
...
sim.
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